O inesquecível crime da novela das oito

danith“De Corpo e Alma” poderia ser lembrada por sua excelente trama bem pensada e por atores expressivos como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Beatriz Segall, entre outros. A novela tocou em temas delicados e conseguiu muitos admiradores na época. Entretanto, um fato ocorrido nos bastidores da novela chocou o país. Há 24 anos, no dia 28 de dezembro de 1992, um golpe ceifaria a vida da jovem atriz Daniella Perez, filha de Gloria. Convidamos o advogado Victor Agmc para discorrer sobre o assunto, infelizmente necessário num dossiê sobre a novela.

A história era simples: Depois de fugir do casamento com Tavinho (Hugo Gross), Paloma (Cristiana Oliveira) provoca uma verdadeira declaração de guerra de Nágila (Nathália Timberg), mãe do rapaz à família da noiva. Mas aquela batalha que tinha ainda requintes de um orgulho ferido acabou respingando nos jovens apaixonados Caio (Fábio Assunção) e Yasmin (Daniella Perez). Os dois atores tinham feito uma trajetória de sucesso até “De Corpo e Alma”. Fábio estreou na TV na novela “Meu Bem Meu Mal” (Cassiano Gabus Mendes, 1990), mesmo ano que Daniella em “Barriga de Aluguel” (Gloria Perez, 1990). No ano seguinte eles voltariam à TV em “Vamp” e “O Dono do Mundo”, Fábio e Daniella respectivamente. “De Corpo e Alma” foi o primeiro encontro dos atores que começavam a despontar como protagonistas.

Para esquentar o romance, após mudarem-se para o Méier, a família de Yasmin vive numa casa vizinha a dos irmãos Bira (Guilherme de Pádua) e Verinha (Juliana Teixeira). O explosivo rapaz acaba se apaixonando pela doce menina que acaba fazendo muito sucesso na gafieira. Tantos desencontros com Caio fazem com Yasmin se envolva com Bira, mesmo amando o filho da algoz de sua família. Gloria não imaginava que esse triângulo amoroso na ficção dava combustível para um desesperado jovem ator que não admitia mudanças no script e resolveu dar ele mesmo final à trama.

Na manhã do dia 29 de dezembro de 1992, duas manchetes tomavam conta dos jornais brasileiros, a primeira noticiava a já aguardada renúncia do então Presidente da República Fernando Collor, a segunda, porém, dava conta do brutal assassinato da jovem atriz Daniella Perez (22 anos), casada com o ator Raul Gazolla, fato este ocorrido na noite anterior. O assassino, por sua vez, era ninguém menos do que o seu colega de trabalho e ator Guilherme de Pádua, então com 23 anos. Se a primeira notícia já era esperada e até mesmo desejada por muitos, a segunda, com certeza, foi objeto de espanto e indignação.

A comoção pública criada ao redor do fato podia ser explicada não só pela brutalidade do crime, mas também porque, tanto o autor do homicídio como a vítima eram notoriamente conhecidos pelo público brasileiro, fiéis telespectadores dos folhetins da Rede Globo.

A motivação do crime seria fruto da ambição desmedida do ator Guilherme de Pádua. Ele acreditava que a autora da novela, Glória Perez, estaria reduzindo a sua participação na trama, situação que lhe gerou apreensão e inconformismo. Guilherme achava que o seu personagem poderia de fato alçá-lo à fama e que a sua aproximação com a atriz Daniella Perez e, até mesmo, uma eventual e conveniente amizade poderiam lhe render bons frutos. Firme neste objetivo, Guilherme ansiava que os personagens Yasmin e Bira continuassem juntos na trama, assim ele teria a visibilidade e projeção desejadas. No entanto, a sua ambição já havia há muito se transformado em paranoia.

Conforme relatado por Glória Perez, anos mais tarde, Guilherme de Pádua chegou a escrever um livro narrando o ocorrido. Curiosamente, no referido livro ele refere-se a si próprio na terceira pessoa, conforme se infere dos trechos aqui transcritos:

Guilherme, no entanto, preferia pensar no pior. Já tinha se conformado com a ideia de “Caio” (personagem de Fabio Assunção), terminar a estória com Yasmin, mas acreditava que se realmente isso acontecesse seria por motivos políticos internos e não pelo mérito do trabalho em si (…) Mas em se tratando da Rede Globo, onde a política costumava “dar as cartas”, tudo o que Guilherme podia era fazer o melhor, sem esperar muito em troca. De qualquer forma, valia a pena “lutar”!

(…) abriu o primeiro dos novos capítulos para tomar conhecimento das cenas de seu personagem e das novas perspectivas de seu trabalho na novela. Começou a folhear com extrema curiosidade que, aos poucos, foi se transformando em aflição, na medida em que constatava a diminuição de suas cenas. (…) Pela primeira vez, dois capítulos foram escritos sem a participação do Bira. No decorrer de tantos meses, isso nunca havia ocorrido! (…) Guilherme sentiu uma ponta de decepção ao constatar o desagradável fato.

Contudo, Guilherme de Pádua não agiu sozinho, com ele estava a sua então esposa, Paula Thomaz com então 19 anos, grávida de 4 meses, com quem Guilherme nutria uma relação doentia e possessiva. Para tanto, ele exaltou o ciúme da sua esposa com relação à atriz Daniella Perez para que ela assim participasse do cometimento do crime.

O CRIME E A PRISÃO DOS SUSPEITOS:

Na tarde do dia 28 de dezembro, nos estúdios da produtora Tycoon na Barra da Tijuca, local onde a novela “De Corpo e Alma” era filmada, Daniella e Guilherme gravaram a sua última cena juntos, cena essa que retratava o fim do romance dos seus personagens, Yasmin e Bira. Conforme relatado pelas camareiras que estavam presentes no estúdio, após o término das gravações, o ator Guilherme de Pádua teve uma crise de choro e, bastante atormentado, chegou a procurar pela atriz Daniella em seu camarim, deixando por lá dois bilhetes.

Em seguida Guilherme saiu do estúdio situado na Barra da Tijuca, dirigindo Santana Azul Metálico, placa LM 1115, que pertencia a seu sogro, e de lá seguiu até o seu apartamento situado em Copacabana para buscar a sua mulher Paula Thomaz, grávida de 4 meses, retornando em seguida aos estúdios. Paula, por sua vez, permaneceu deitada no banco de trás do Santana, enquanto Guilherme adentrou no estúdio.

Eram pouco mais de 9 horas da noite quando Daniella terminou de gravar as suas cenas e ainda no estacionamento, parou para tirar fotos com duas fãs que a aguardavam no local. A atriz, então, saiu dirigindo o seu veículo Escort XR3, preto. Atrás dela, seguia o Santana azul, conduzido por Guilherme de Pádua.

Logo após abastecer o seu carro num posto de gasolina próximo (posto Alvorada), Daniella foi interceptada pelo Santana do ator em uma emboscada. Em seguida Guilherme desferiu um soco contra Daniella, golpe que a deixou desacordada. Em ato contínuo, a atriz foi arrastada para dentro do carro, fato este presenciado por um dos frentistas do referido posto. Paula então passou a conduzir o Santana e Guilherme sai dirigindo o Escort de Daniella. De lá eles seguiram até a Barra da Tijuca, onde pararam em um terreno ermo e escuro.

No lote baldio situado nas proximidades da Av. Cândido Portinari, Guilherme de Pádua e Paula Thomaz finalizaram o ardil, assassinando cruelmente a atriz Daniella Perez com 18 golpes de punhal que atingiram o seu coração, pescoço e pulmão. Em seguida, eles esconderam o corpo da atriz no matagal, abandonando o veículo  Escort de Daniella no  local. A razão de tantas punhaladas, todavia, era para insinuar que tratava-se de um crime passional, cometido por algum fã ensandecido, talvez.

Conforme restou noticiado pela revista Veja, edição 1269, de 6 de janeiro de 1993, uma testemunha, o advogado Hugo da Silveira, estranhou a movimentação dos dois veículos no local e acionou a polícia, chegando inclusive a anotar as placas dos carros:

“Às 9h20 da noite, os dois carros, estacionados num lugar ermo e perigoso, a Avenida Cândido Portinari, chamaram a atenção do advogado Hugo da Silveira de 60 anos. Ele ia para casa da sua filha no condomínio Rio Mar, quando viu o Escort vazio e o Santana logo atrás. “Deu para ver que havia um casal dentro do Santana”. Contou ele a polícia. Desconfiado depois de um recente assalto no loteamento, o advogado foi até a casa de sua filha e voltou com o caseiro Jamilton Ribeiro Lima para anotar as duas placas.”

Depois de acionada, a polícia compareceu no local, quando então identificaram o proprietário do veículo Escort, o ator Raul Gazolla, não tardando em localizar o corpo de Daniella escondido no matagal, conforme segue a reportagem da revista

Após as autoridades policiais terem comunicado o trágico ocorrido à família da vítima, vários amigos e familiares de Daniella compareceram no local do crime. Entre os que foram consolar a família estava o próprio assassino Guilherme de Pádua que mais tarde se dirigiu até a 16ª Delegacia da Barra da Tijuca para levar palavras de apoio ao ator Raul Gazolla, esposo de Daniella, que em retribuição, lhe disse: “Você é um grande amigo”. Na época, esta aparente frieza de Guilherme chocou ainda mais a opinião pública. A tese de que o criminoso sempre retorna à cena do crime nunca soou tão verdadeira. Faço um parênteses para citar o relato da mãe da vítima, Glória Perez:

“Na noite que assassinou Daniella, Guilherme de Pádua foi junto com a cúmplice até a delegacia (no próprio carro onde cometeu o crime), abraçar nossa família e dar condolências. Numa roda, a atriz Claudia Raia perguntava, horrorizada, quem poderia ter praticado uma barbaridade tão grande contra uma menina tão frágil. Guilherme de Pádua tomou a palavra. Disse que a cidade estava muito violenta mesmo, e a pretexto de mostrar a marca de um tiro que teria levado, levantou a manga da camisa e exibiu o braço cheio dos arranhões com que Daniella tentou se defender dele! Claudia Raia registrou e ainda comentou com outra pessoa: “esse cara apanhou da mulher. O braço dele tá todo lanhado. E é unha de mulher!” Só no dia seguinte ela ficou sabendo que aquelas eram as marcas do crime que ele cometera há poucas horas! Tem mais: saiu da delegacia dizendo para Marcela Honignam que ligasse a qualquer hora para avisar a hora do enterro, porque fazia questão de estar lá, do meu lado (claro, posando para fotos)! esse é um exemplo clássico da satisfação que o psicopata sente em trapacear, em se divertir com a dor das pessoas que atinge”

Por sorte, a polícia estava a par do número das placas dos carros, que cautelosamente foram anotadas pelo advogado Hugo da Silveira e, imediatamente, iniciaram-se as investigações. Ao chegar aos estúdios da produtora Tycoon, a polícia logo descobriu que a placa do carro fornecida pelo advogado pertencia a Paulo Almeida, pai de Paula Thomaz, esposa de Guilherme.

Estranhamente, a primeira letra da placa fornecida pela testemunha divergia da primeira letra da placa do carro do ator, conforme constava da planilha do estacionamento do estúdio, já que a placa do carro de Guilherme era “LM1115”, conquanto a placa que fora anotada era “OM1115”.

Mais tarde esta divergência restou esclarecida, pois ficou comprovado que a placa em questão foi adulterada com fitas para que o “L” se transformasse na letra “O”, fato que também comprovou a premeditação do crime, o que sepultou de uma só vez a hipótese de crime passional, durante o julgamento.

Assim, na manhã do dia 29 de dezembro, Guilherme foi levado até à delegacia como principal suspeito, aonde acabou por confessar o crime depois de um longo interrogatório. Em uma conversa informal com os policiais, Paula Thomaz chegou a dizer que também participou do crime, no entanto, ela negou o fato em depoimento. O delegado, todavia, ao ouvir um telefonema de Guilherme pela extensão da linha, escutou ele afirmar que seguraria tudo sozinho para Paula, levando a crer que a sua esposa também teria participado do crime. Deste modo, em 31 de dezembro de 1992, ambos foram presos como réus confessos do homicídio. Poucos meses depois, já na prisão, Paula deu à luz seu filho Felipe.

Leia a continuação do caso amanhã aqui no Tele Dossiê.

Para saber mais: site Daniella Perez, Arquivos de um processo – www.gloriafperez.net

Victor Agmc

Imagens: Reprodução: site Daniella Perez, Arquivos de um processo /  TV Globo / Jornal do Brasil / Revista Veja / Revista Contigo!

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5 thoughts on “O inesquecível crime da novela das oito

  1. Muito bom o esclarecimento sobre a motivação que foi defendida no Tribunal e que rendeu condenação a Guilherme de Pádua.Impressiona como até hoje está guardado no inconsciente coletivo que razões passionais teriam ocasionado o crime e que os dois atores teriam um caso extra-tela.Mas nunca foi dito pelo assassino Guilherme que existiria um caso entre ambos e sim,uma suposta paixão unilateral de Daniella por ele uma suposta pretensão da mesma de que ele largasse a esposa pra que assumissem então um romance.Ele diz isso em entrevista dada no dia 29/12/92,dia posterior ao crime,e que ela ameaçaria a carreira dele e à vida da esposa grávida.Ora,como uma pessoa leva uma “louca” dessas a um local ermo e com a esposa grávida a tiracolo apenas pra conversar e provar que não havia caso?Se,segundo a versão do assassino,não havia caso mas ela o estaria forçando a largar a família,ela tentaria algo se estivessem a sós num local ermo.E se soubesse que Paula estava lá,insinuaria que havia sim um caso,concordam?As muitas versões deles nunca colaram!

  2. Estou em crer que a motivação era somente por deixar de aparecer na televisão, perder o palco e deixar de ser estrela. Eis que o cortam em dois episódios. Na sua mente fabula um plano, matar a atriz principal da novela para se aproximar da sua mãe, num momento de dor profunda e daí retirar dividendos e quiçá devido ao talento daquela, ser o actor principal no próximo sucesso de Gloria Perez. A Daniela na mente do “Bira” não passaria de um meio para atingir um fim.

    • Exato Hugo,também acredito que tudo não tenha passado de uma terrível coincidência:no momento em que Daniella,cansada do assédio interesseiro,tentava se desvencilhar de Guilherme,em apenas uma semana o personagem Bira perdia Yasmin,tinha o ônibus que dirigia incendiado e ficava dois capítulos sem aparecer.Diante disso,Guilherme deduziu que Daniella tinha se queixado a Glória Perez e esta o estaria tirando da novela.Para vingar-se,matou covardemente!Assim,ele não sairia como único perdedor:perderia Glória seu bem mais precioso,a filha,e perderia Daniella também seu bem mais precioso:A VIDA!

      • Penso também que,no seu voo para o estrelato,Guilherme de Pádua tenha pensado que seria fabuloso se Bira terminasse a história ao lado de Yasmin,cujo par romãntico original era Caio(Fábio Assunção).Para um ator principiante roubar o par romântico de uma promessa de galã que era Fábio na época,emendando uma novela na outra,seria estupendo!Acho que a pressão que ele fazia em Daniella era nesse sentido,para que Glória mantivesse o casal Bira-Yasmin junto por mais tempo pra ganhar a torcida do público.Lendo trechos do livro que o assassino escreveu na cadeia e que Glória Perez embargou,é a essa conclusão que eu chego.

  3. é uma pena que mesmo depois de tudo esclarecido, os assassinos saiam da cadeia por portarem bem! isso é nada mais nada menos que uma estupidez das nossas vergonhosas leis brasileiras. se eles se importassem tão bem assim, nao tinham matado ninguém! muito menos uma menina doce, jovem e feliz. força glória você nao está sozinha!

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