“A Próxima Vítima”: Muito mais que uma novela sobre assassinatos

Quando Sílvio de Abreu estreou no horário nobre da Rede Globo em 1990 com “Rainha da Sucata”, ele já havia se tornado um aclamado autor, escrevendo para o horário das 19h vários sucessos, alguns deles, inclusive, figuram na lista das melhores novelas já produzidas pela televisão brasileira. Mesmo sendo uma grande novela e tendo conquistado uma audiência significativa, a trama da sucateira teve problemas estruturais nos primeiros capítulos e dividiu as atenções da imprensa com a surpreendente “Pantanal”, exibida pela TV Manchete. Em 1992, Sílvio voltou para as 19h e escreveu “Deus nos Acuda”, uma ácida crítica ao Brasil que estava vivendo o impeachment do presidente da república Fernando Collor. O autor só voltaria para as 20h em 1995, para construir seu maior sucesso de público: “A Próxima Vítima”.

De volta ao horário nobre, Sílvio de Abreu não se limitou a criar uma trama de suspense onde o único mistério era a identidade do assassino. Em sua novela, havia uma série de crimes e o grande desafio colocado para o público era saber quem seria a próxima vítima. Com uma história bem construída e tramas que se intercalavam, a maioria dos personagens estava na lista de suspeitos. Mas, a qualquer momento, qualquer um deles poderia ser eliminado da história.

A trama policial, que tinha como principais cenários os bairros da Mooca e Bixiga, em São Paulo (universos recorrentes nos trabalhos de Silvio de Abreu) também apresentava um forte quinteto amoroso, que movimentou a trama tanto quanto os assassinatos. Helena (Natália do Vale) amava Juca (Tony Ramos), que amava Ana (Suzana Vieira), que por sua vez amava Marcelo (José Wilker), que tinha um caso com Isabela (Cláudia Ohana). Até o último capítulo, o público não podia afirmar com certeza os desfechos de todos esses romances, já que Marcelo, mesmo tendo lutado pelo amor de Ana, era um vilão e merecia seu castigo. A proprietária da cantina combinava muito mais com Juca, mas ninguém imaginava que o romance do feirante com a bonitona do Morumbi iria cair no gosto do público, colocando o preconceito social de lado. Cláudia Ohana brilhou como a mimada e psicopata Isabela, herdeira única da fortuna dos Ferreto.

Além do suspense e do amor folhetinesco, básico a qualquer novela, Sílvio abordou diversos temas polêmicos, mas que ao serem tratados com naturalidade e profundidade, tanto pelos atores como pelos autores, conseguiram envolver os telespectadores e chegando até em alguns momentos, a dividir a atenção com os tão esperados assassinatos. Além do viciado Lucas (Pedro Vasconcelos) e sua tia Julia (Glória Menezes), envolvida com causas sociais; do casal homossexual Sandro (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes); da prostituta por vocação, Quitéria Quarta-Feira (Vera Holtz) e retratar o amor entre pessoas com diferença de idade, como Irene (Viviane Pasmanter) e Zé Bolacha (Lima Duarte) e Carmela (Yoná Magalhães) e Adriano (Lugui Palhares), o autor criou uma família de classe média negra. Afinal de contas, o preconceito é racial ou social? A resposta logo surgiu depois da primeira pesquisa realizada pela emissora junto ao público da novela. Entre as espectadoras, Fátima (Zezé Motta) foi apontada como a personagem carismática do elenco.

“A Próxima Vítima” trouxe ainda tipos inesquecíveis, como as já citadas Isabela e Quitéria, mas ninguém roubou tanto a cena e conquistou tantos elogios como a já premiada Aracy Balabanian. Depois de viver a Dona Armênia em duas novelas do mesmo autor (“Rainha da Sucata” e “Deus nos Acuda”), a atriz ganhou mais um presente de Sílvio de Abreu. Filomena Ferreto, a mais velha das irmãs Ferreto e a única que possuía mãos de ferro para administrar o frigorífico da família, poderia ser considerada uma vilã, já que tinha uma noção de ética bastante discutível e não tinha o menor medo em controlar a vida de vários personagens da trama. Mas a forma maternal como ela tratava a dissimulada sobrinha e seu afeto pelo marido, que foi ficando cada vez mais claro, tornaram Filomena uma personagem tão humana, que conquistou o público na reta final. Palmas para Aracy, que levou pra casa os prêmios da APCA (dividiu com Laura Cardoso por “Irmãos Coragem”), Imprensa e Contigo de melhor atriz daquele ano. E pensar que meses depois, a atriz viveria com o mesmo brilho um tipo tão diferente, a inesquecível Cassandra, no humorístico “Sai de Baixo”.

Merecem destaque também as construções de Lima Duarte; Nicette Bruno (Nina), a cunhada sempre apaixonada por Zé Bolacha; Yoná Magalhães (Carmela), em um raro personagem introspectivo, assim como a Tonha de “Tieta”; Eliseo (Gianfrancesco Guarnieri) e Tereza Rachel (Francesca Ferreto), em seu ultimo grande momento na TV, mesmo que só nos seis primeiros capítulos e nos dois últimos.

A estratégia de escrever capítulos falsos, tão adotada hoje em dia pelos autores do horário nobre, foi usada durante toda a novela, com o objetivo de evitar que a imprensa publicasse quem iria morrer. O autor revelou que mantinha uma sinopse secreta, desconhecida até mesmo por José Bonifácio de Oliveira, o Boni, então vice-presidente de operações da TV Globo. Segundo Silvio, a identidade do assassino já estava definida desde a sinopse. Inclusive, nas vésperas do quinto assassinato (Josias), a imprensa, sempre ávida em descobrir a vítima da vez, anunciou que Quitéria seria assassinada. Mas foi tiro n’água.

A novela chegou a seus capítulos finais cercada por grande suspense. Diante do assédio da mídia para descobrir o assassino e da repercussão da trama junto ao público, Silvio de Abreu foi obrigado a fazer algumas alterações no desfecho da história policial. A Rede Globo chegou-se a cogitar a exibição ao vivo do último capítulo, para evitar que o final fosse descoberto antes da transmissão. O autor contou em diversas entrevistas que ele e o diretor Jorge Fernando resolveram gravar horas antes do último capítulo, três possíveis desfechos. Silvio mandou as cenas alternativas para a emissora, com o capítulo já editado. Quando entraram no estúdio, os atores receberam suas falas, e só então ficaram sabendo quem era o assassino.

“A Próxima Vítima” também marcou a estreia de Alexandre Borges e Deborah Secco na Globo. O bordão da personagem Carina, Socorro né foi abusivamente repetido, a ponto de obrigar o autor a desaparecer com a fala depois de várias reclamações publicadas na imprensa. Claudia Raia, que fez uma participação especial no último capítulo, contou em entrevista que Silvio de Abreu exigiu sigilo absoluto sobre sua cena e a orientou para que chegasse ao estúdio maquiada e vestida com sua própria roupa, como quem faz uma visita aos amigos. A aparição da atriz no último dia de novela causou alvoroço no elenco e nos jornalistas, desesperados em descobrir quem era o assassino. Nos fundos de uma casa cenográfica, horas antes de a novela ir ao ar, o diretor gravou a personagem de Claudia fazendo uma breve caminhada e morrendo com um tiro. É a última cena da novela, que deixa no ar um novo mistério. Por essas e por outras, “A Próxima Vítima” se tornou uma grande novela, elogiada pelo público e pela crítica, e não apenas uma história policial ou um ultrapassado melodrama. Sílvio tentou repetir o fenômeno em “Torre de Babel”, construindo um suspense em torno da explosão de um shopping. Mas o raio não caiu duas vezes para o mesmo autor!

Rafael Tupinambá

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About Rafael Tupinambá

Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília e um hoje morador do Rio de Janeiro, começou seus estudos em dança e teatro aos sete anos de idade. É membro do Instituto Gaia, OSCIP que desenvolve projetos sócio-educativos. Pesquisador autodidata em dramaturgia e televisão desde a infância, escreveu as colunas “Pop & Art” no Jornal de Notícias/MG e “Televizado” na Gazeta Norte - Mineira.

2 thoughts on ““A Próxima Vítima”: Muito mais que uma novela sobre assassinatos

  1. Eu prefiro Torre de Babel, que se manteve maravilhosa e exitante nos seus 203 capítulos… Sílvio arrasou bem mais nessa trama. Em A Próxima Vítima ele encheu linguiça com tramas paralelas, e o que sustentava a novela era a trama policial bem Ágata Christie e alguns personagens bem contruídos. Fora isso parecia uma novela boa mexicana.

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