A versão do “Sítio do Picapau Amarelo” dos anos 70 dividia opiniões

Nesta semana das crianças, além de relembrarmos a novela “Chiquititas”, coqueluche dos anos 90 exibida pelo SBT, vamos voltar ao anos de 1978 e resgatar o que era dito pela imprensa especializada sobre a nova adaptação da televisão para a obra de Monteiro Lobato. Diferente dos comentários manifestados hoje, cheios de saudosismo e elogios, naquela época, pouco mais de um ano depois de sua estreia, havia quem torcesse o nariz. 

O CRIADOR DO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

O criador do Sítio do pica-pau-amarelo ainda tem o que dizer às crianças de hoje?

Trinta anos depois de sua morte, ocorrida em 5 de julho de 1948, o escritor José Bento Monteiro Lobato, Autor de 17 livros de histórias infantis, continua a ser editado, lido e já agora visto na televisão. Para alguns, a permanência do sucesso comercial bastaria para confirmar a sua atualidade. Outros, entretanto, acham que a continuidade de Lobato é apenas o resultado da constante realimentação de um mito. O mundo que criou, tendo como centro o Sítio do Pica-Pau-Amarelo, já não despertaria interesse entre as crianças de hoje, cada vez mais informadas da realidade que as cerca e voltadas para um outro tipo de fantasia. É assim, por exemplo, que pensa Odette de Barros Mott, Autora de livros para crianças. Já Vander Pirolli, que como Odette também faz literatura infantil orientada para a discussão dos problemas do cotidiano, acha que o legado mais valioso de Lobato está na “lição de inconformismo que transmitiu”. Com o que concorda em principio outro escritor mineiro, André Carvalho, que desafia a se encontrar um leitor de Lobato que não seja pelo menos um liberal, um adulto aberto às idéias novas. Já a educadora Maria Helena Silveira, adaptadora dos contos de Lobato para a televisão, sugere um “distanciamento crítico” em relação ao escritor. Com isto, ela quer dizer que embora a sua atualidade não possa ser negada, convém nem perder de vista também os aspectos negativos como, por exemplo, os preconceitos que alimentava em relação ao negro e mulher.

INDISPENSÁVEL UMA RELEITURA
Maria Helena Silveira

Para a educadora Maria Helena Silveira, a obra de Monteiro Lobato tem uma permanência indiscutível. Ele foi um antecipador, esteve no meio do caminho em relação à criação verbal, o que apareceria depois em Guimarães Rosa, mas também deixou transparecer em seus livros para crianças preconceitos em relação ao negro e à mulher. Maria Helena reclama distanciamento crítico em relação a uma obra escrita há mais de 40 anos. O mito Monteiro Lobato mereceria uma leitura ou uma releitura mais atenta por parte daqueles que o leram e o idealizaram quando crianças.

- O fascínio que ele tinha pelos Estados Unidos, por exemplo, é explicado pelas condições da época em que viveu, quando os ideais de liberdade e democracia eram defendidos na América do Norte em luta contra o fascismo.

Coordenadora da produção educacional do Sitio do Pica-Pau-Amarelo da TV Globo, Maria Helena Silveira vê atualidade nos temas e nos personagens, mas acha que existe uma idealização exagerada em torno do escritor. “É um pouco como Mário de Andrade, sempre citado e poucas ver zes lido ou relido”.

- Quem guia a família, no mundo de Lobato, é uma mulher, Dona Benta. Não há personagens masculinos significativos. Na adaptação para a televisão, introduzimos a figura do Zé Bento. Mas, sem fraudar o próprio Lobato, não poderíamos fazer dele um personagem masculino forte. Mesmo o Tio Bainabé, que leva Pedrinho para o saber mais simples, mais ligado à natureza, é dependente de Dona Benta. Numa época em que predominava uma sociedade patriarcal rígida, a permissividade fica a cargo de uma mulher, de uma figura feminina, de uma avó que convive com as fantasias, que as permite e que acredita em assombrações. Não existe um pai, porque o pai brasileiro naquela época era autoritário e repressor.

Quanto aos personagens, “enquanto saídos de contos de fada ou da mitologia, são benéficos. Eles têm permanência e atualidade, enquanto elementos que ajudem as crianças em suas fantasias. Porque considero benéfica uma figura que conte histórias, como a avó, que acredite em assombração, é que vamos, por exemplo, mostrar na série a morte de Visconde. Acho importante evitar uma superproteção ao público infantil, porque se este não encarar normalmente a morte, irá se desestruturar no primeiro contato com ela. A criança tem que conviver com a violência, a morte, as bruxas. Isto a leva a trabalhar seus problemas internos e, conseqüentemente, a achar que o livro tem utilidade”. Para Maria Helena Silveira, tentou-se impingir durante anos uma literatura infantil sem conteúdo, na qual não podia existir violência, porque assim – dizia-se – as crianças virariam adultos sem conflitos. O que, de resto, nunca aconteceu.

Voltando à mitificação de Monteiro Lobato, a educadora acredita na urgente necessidade de uma releitura do Autor. “Parece que todo mundo ficou satisfeito com as histórias que leu na infância, e esqueceu-se depois de analisar criticamente a obra do escritor. Acho que é uma injustiça para com o próprio Autor, o desconhecimento, ou o segundo plano a que está relegada sua obra para adultos, muito mais brasileira, muito mais sertaneja, muito mais regional. Cidades Mortas, Urupês e Negrinho são livros muito sérios. Cidades Mortas é magistral quando mostra a decadência do Paraíba. Não acredito que essa literatura esteja sendo relida como merece”.

Nas críticas feitas a o projeto de adaptação do Pica-Pau-Amarelo para a TV “sofisticação”, “americanização” – Maria Helena vê a desinformação dos críticos em relação ao escritor. “Primeiro será necessário ler sua obra inteira, para depois criticar. Temos o maior cuidado, por exemplo, em não reforçar a idealização em relação aos Estados Unidos, ou em relação às figuras de Walt Disney. Não sei se Peter Pan, que se recusa a chegar a idade adulta, que prefere morar na Terra do Nunca, é um personagem muito benéfico para a criança. Quando se transporta para hoje a obra infantil de Lobato, deve-se ter cuidado em evitar expressões como “negra beiçuda”, que utiliza em relação a Tia Nastácia, ou coisas como ”nunca mais houve beleza depois da Grécia de Péricles”, o que mostraria um mundo estático. Temos também o cuidado em não traí-lo, mostrando uma visão muito cristã do mundo, quando todos sabemos que era agnóstico e materialista. Mas isto não exclui as crendices religiosas do interior do país, que ele registrou.

Na defesa do mito Monteiro Lobato e nas críticas à deformação dos personagens na televisão, Maria Helena Silveira vê mesmo um preconceito de classe. “Da classe dos escolarizados, que conviveram com Monteiro Lobato enquanto donos de bibliotecas, e se incomodam agora que ele é consumido sem marca de privilégio, numa preocupação de atingir a uma massa de pessoas”.

Enfatiza, por fim, que em seus livros há um nível de criação verbal muito grande. No caso de Emília, ele inventa todas as palavras necessárias, mostrando que se foi publicamente um adversário do modernismo, ao escrever desfazia a imagem de conservador e era mesmo um antecipa-dor.

FOI BOM PARA A GERAÇÃO PASSADA
Odete de Barros Mott

São Paulo – A escritora Odette de Barros Mott – 65 anos, 30 dos quais ocupados em escrever livros infanto-juvenis fica com um sorriso meio sem jeito para falar sobre Monteiro Lobato, pois em sua opinião o escritor está praticamente ultrapassado as crianças de hoje mais preocupadas com a realidade que as cerca do que com os mistérios e as aventuras.

- Monteiro Lobato foi o iniciador da literatura infanto-juvenil entre nós, sua obra tem muita importância justamente por ser a de um desbravador do gênero. Mas essa obra se divide em duas fases: a do Sítio do Pica-Pau-Amarelo, espontânea e criativa, e outra, mais didática e menos atrativa, quando se torna professoral como em Aritmética da Emília e Geografia da Dona Benta.

Apesar do grande respeito que sente por Lobato, a escritora considera que a fase do Pica-Pau-Amarelo é a mais convincente. “Tenho diante de mim duas gerações: meus filhos foram leitores de Lobato; meus netos já não percebem as maravilhas do seu texto e preferem uma Literatura de espaçonaves e mundos imaginários”.

Odette de Barros Mott, nascida em Igarapava, ela própria leitora de Lobato, faz questão de ressalvar o pretenso racismo do escritor de Taubaté, pois não se pensava em racismo, não se sentia o racismo das fazendas daquela época. “O negro, como já afirmaram, ficava em seu lugar. Brinquei muito com crianças negras, mas chegado certo momento cada um ia para seu lado, reflexo ainda da escravidão. Aos olhos de todos isso parecia um gesto natural. O racismo existe, mas não era detectado como tal. Acredito que era este o tipo de racismo de Lobato, um racismo adquirido pelo costume rural de seus antepassados, inconsciente”.

- A criança de hoje esta preocupada com problemas como droga, sexo, violência, pesquisas espaciais, enfim, o dia-a-dia de todos. Sua fantasia começa pela realidade, pois televisão oferece-lhe uma massa enorme de informações. Como autora de livros infanto-juvenis, tive que mudar minha forma de atuar – hoje faço pesquisas de campo, como aconteceu quando quis escrever Justino, o Retirante, história de um menino pobre nordestino -pois a criança. precisa conhecer a realidade que a circula, mesmo que isto doa. Creio que Lobato, se vivo fosse, faria o mesmo. O nosso público está cada dia mais exigente. E isto é muito bom. E’ um sinal de que a criança brasileira evoluiu e está. em busca da verdade.

Ela acha que Lobato foi importante para a sua geração e a dos seus filhos. “Naquela época, era o único Autor nacional de peso. Os demais eram estrangeiros e suas histórias pertenciam a outras culturas Hoje a situação melhorou um pouco. Já temos uma associação – o Centro de Estudos de Literatura Infanto-Juvenil – reunindo um bom número de escritores brasileiros desta área, mas ainda há muito por fazer.

Odette de Barros Mott acha que não é certo exaltar Monteiro Lobato indefinidamente. ”As crianças evoluíram muito, e um escritor não deve magoar-se por ser ultrapassado pelos leitores, pois isto só demonstra que está havendo evolução. Ninguém mais quer saber dos problemas de Emília, a boneca falante. Quer saber o que se passa na realidade, quer manter contato com os problemas reais. Vendi 10 mil exemplares, em um mês, do meu livro A Série C, em que falo dos problemas da juventude atual, utilizando linguagem de jovens e colocando a questão do diálogo não existente entre pais, mestres e alunos. Esses jovens não estão preocupados com o Sítio do Pica-Pau-Amarelo, e na TV sofisticaram em demasia um sítio do vale do Paraíba. As crianças querem saber tudo que se passa no mundo de hoje, na tentativa de armazenar experiências e descobrir suas próprias verdades. Quero deixar claro, porém, que respeito à obra de Lobato como ninguém, pois foi ele, afinal, – que desbravou toda essa problemática. E, sobretudo, foi fiel à sua verdade e à verdade de sua geração”.

MELHOR EM LIVRO DO QUE NO VÍDEO
André Carvalho

Belo Horizonte – “Existe hoje na literatura infantil brasileira algum personagem tão irreverente quanto Emília? Algum personagem que derrube velhos e arcaicos valores com tanta força – porque é a força do gênio de Lobato atrás dela – quanto essa boneca magrela? Alguém na literatura infantil casou uma menina com um preto? Pois Lobato casou a menina do nariz arrebitado com o peixe escamado e Emília com um porco, o Marquês de Rabicó”.

Considerações como essas evidenciam a atualidade de Monteiro Lobato, segundo o jornalista, escritor e editor de livros infantis André Carvalho, para quem a revisão que se tenta fazer atualmente do Autor de O Sitio do Pica-Pau-Amarelo é, na verdade, uma tentativa de considerá-lo superado.

André Carvalho entende que as principais características da obra de Lobato, determinantes de sua atualidade, são a irreverência aliada ao inconformismo. Seu liberalismo e sua crença na necessidade das mudanças sociais.

- Saiam por ai procurando um único leitor de Monteiro Lobato que não seja pelo menos um liberal. Encontrem um executivo de hoje, homem maduro em posto-chave, e perguntem a ele. Se leu a obra de Lobato, é um contestador (no bom sentido ), aberto a idéia novas, nunca um freio social.

Segundo André Carvalho, a geração que conhece Monteiro Lobato apenas através da TV – e ele cita a série da Rede Globo, O Sítio do Pica-Pau-Amarelo – não interiorizou a liberdade, como os melhores leitores do escritor. Para ele, a versão transmitida pela TV é pasteurizada, massifica os personagens do Autor brasileiro com a mesma superficialidade com que massifica heróis americanos e japoneses.

André Carvalho acredita-que seria melhor para o país se os meninos estivessem lendo Monteiro Lobato. Defende, então, a maior difusão de suas obras através do livro, e não “dessas versões glamourosas, porém inócuas, da televisão”.

MAIS DO QUE ATUAL, ELE É NECESSÁRIO
Vander Piroli

Belo Horizonte – Para o escritor e jornalista Vander Piroli, Autor de três livros Infantis, a atualidade e permanência da obra de Monteiro Lobato derivam da “lição de inconformismo que transmite às crianças, principalmente em um mundo cheio de contradições e injustiças”.

Segundo Piroli, a literatura infantil de Monteiro Lobato representou, por muito tempo, um antídoto contra o bitolamento das lições que as crianças recebiam na sala de aula repleta de oficialismo, repressão e conformismo”.

O Autor de A Mãe e o Filho da Mãe (contos), O Menino e o Pinto do Menino, Os Rios Morrem de Sede e Macacos me Mordam (histórias infantis) acredita que, guardadas as proporções, a linguagem da obra de Monteiro Lobato ainda é atual, à medida que o escritor sempre se preocupou em conservar um estilo simples e direto.

Vander Piroli não concorda com o ponto-de-vista de que a ressurreição de Monteiro Lobato deva ser promovida exclusivamente através da televisão. Isto porque, nas adaptações, “certos aspetos importantes na obra do escritor, como a irreverência, o inconformismo e concepções materialistas, serão inevitavelmente eclipsados”.

Sugere que o Governo publique edições, com grandes tiragens, para serem, vendidas a preços acessíveis ou até mesmo distribuídas gratuitamente nas escolas. Seriam edições simples, em papel de jornal, sem nenhum luxo.

Vander atribui a dependência cultural do país à máquina que promove os best sellers estrangeiros a pouca difusão de Lobato entre os brasileiros. Acredita, ainda, que os preconceitos gerados entre o oficialismo contra Monteiro Lobato, devido às suas convicções políticas e ao rótulo materialista colado à sua obra, tenham sido também responsáveis por sua pouca divulgação, “Monteiro Lobato é atual e necessário”, concluiu.

JORNAL DO BRASIL

08/07/1978

3 thoughts on “A versão do “Sítio do Picapau Amarelo” dos anos 70 dividia opiniões

  1. Sitio do Pica Pau Amarelo, dos anos 70 e 80 MARAVILHOSO!!!!!! Nossa quanta saudade, eu me emociono quando vejo um desses episódios, o elenco original fabuloso!!!! Só quem viu é que sabe o quanto foi MARAVILHOSO assistir este Sítio, são muitas recordações, era mágico assistir o Sítio original no formato e elenco, quanta saudade, e as músicas que maravilha, uma viagem no tempo, muita saudade mesmo!!!!

    • Sinto muitas saudades desta época maravilhosa, como era MÁGICO assistir O STIO DO PICA PAU AMARELO anos 70/80. Me emociono e choro de saudades daquela infância linda que só quem viveu e assistiu sabe da magia daquelas belas tardes.

      • Do alto dos meus 45 anos de idade, ouso dizer que não existiu nem nunca mais existirá uma série de televisão com tema infantil tão espetacular como o Sítio do Pica-pau Amarelo dos anos 70 até precisamente o ano de 1982, quando a Reny de Oliveira fez a sua última participação no papele de Emília.
        Tenho uma saudade tremendamente absurda dessa época e me emociono demais ao me lembrar dela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>