Daniella Perez: Um crime minimizado pelas leis brasileiras

danipaduathMuitas versões de um mesmo caso, muitas dúvidas, mas a sociedade esteve de prontidão acompanhando o julgamento dos algozes da jovem atriz. Os desdobramentos ainda são vivenciados hoje em dia. Leia a segunda parte do dossiê sobre os 24 anos da morte de Daniella Perez.

Durante a fase de inquérito, Guilherme de Pádua inventou várias versões para o ocorrido, inclusive tentou inocentar a sua ex-mulher no início. Todavia, não tardou muito e ambos os suspeitos passaram-se a se acusar mutuamente, jogando nas costas do outro a responsabilidade pela autoria do crime.

O julgamento demorou. Mas depois de 4 anos na cadeia finalmente aconteceu, Guilherme de Pádua e sua já ex-mulher, Paula Thomaz, foram julgados separadamente. Após as investigações, finalizado o inquérito, Guilherme de Pádua foi denunciado nas iras do art. 121 do Código Penal, § 2 º, inciso I e IV, ou seja, homicídio qualificado, cometido por motivo fútil, por meio de emboscada e com a utilização de recursos que dificultaram a defesa da vítima.

As provas contantes dos autos, por sua vez, foram suficientes para convencer o juri de que Guilherme de Pádua era realmente culpado.

Conforme foi noticiado pela Revista Veja, Edição nº 1480 de 29 de janeiro de 1997, para provar que houve premeditação, a promotoria usou como prova os vestígios de fita adesiva que adulterou a placa LM 1115 do carro que Guilherme dirigia. A prova da premeditação, afastou de uma vez por todas a tese de que o homicídio seria passional, isto é, praticado sob o domínio de violenta emoção, homicídio cuja a pena é mais branda.

O depoimento do advogado Hugo Silveira que viu o carro de Guilherme de Pádua no local do crime, serviu para comprovar que Guilherme não estava só, já que o advogado viu um casal dentro do Santana, tendo conseguido, inclusive, identificar Paula Thomaz.

Já o testemunho do ex-frentista Flávio Bastos foi de suma importância para a acusação. O ex-frentista que abasteceu o veículo de Daniella instantes antes da emboscada, informou ter visto o momento em que o carro da atriz foi interceptado pelo Santana de Guilherme. E mais, presenciou o soco que Guilherme desferiu contra a atriz, bem como, o momento em que o mesmo a arrastou desacordada até o Santana.

Todavia, a arma do crime, um punhal, nunca foi encontrada. Ao contrário da notícia que se espalhou na mídia, os peritos concluíram que a arma do crime não foi uma tesoura. O laudo pericial revelou que os ferimentos que atingiram Daniella foram feitos por instrumento pérfuro-cortante de dois gumes. As perfurações encontradas em sua blusa mostram que o instrumento não entrou esgarçando, como uma tesoura faria, mas cortando. Ademais, o uso de uma tesoura provocaria inevitavelmente ferimentos na mão do agressor, porque a pessoa teria que agarrar o gume para efetuar os golpes, ferimentos que os acusados não possuíam no dia posterior ao cometimento do crime.

Em que pese a existência de algumas contradições técnicas conforme apontado pela defesa, o conjunto probatório produzido foi suficiente para convencer o corpo de jurados de que o assassino estava diante deles e, por 5 votos a favor e 2 contra, o juri votou pela condenação de Guilherme de Pádua, sendo em seguida sentenciado a 19 anos de prisão.

Segue a seguir um trecho da sentença condenatória:

(…) A conduta do réu exteriorizou uma personalidade violenta, perversa e covarde quando destruiu a vida de uma pessoa indefesa, sem nenhuma chance de escapar ao ataque de seu algoz, pois, além da desvantagem na força física o fato se desenrolou em local onde jamais se ouviria o grito desesperador e agonizante da vítima.

Demonstrou o réu ser uma pessoa inadaptada ao convívio social, por não vicejarem no seu espírito os sentimentos de amizade, generosidade e solidariedade, colocando acima de qualquer outro valor a sua ambição pessoal.

Diante destas circunstâncias, onde se acentuam intenso grau de culpabilidade, impõe-se uma resposta penal condizente com a exigência da necessidade e suficiência para reprovação e prevenção do crime consoante determina o dispositivo legal norteador da aplicação da pena.

(Citação retirada do site: http://tvibopenews.wordpress.com/2010/04/11/tudo-sobre-o-caso-daniela-perez/)

Em 16 de Maio de 1997, Paula Thomaz também foi condenada pelo júri popular por 4 votos a 3, sendo em seguida sentenciada a 18 anos e seis meses de reclusão.

A LEI DE CRIMES HEDIONDOS:

Guilherme e Paula Thomaz foram presos em 31 de dezembro de 1992, durante o início das investigações e assim permaneceram até o dia dos seus respectivos julgamentos. Uma vez condenados, os réus deveriam cumprir o restante de suas penas, no entanto, como qualquer outro condenado, eles teriam o direito à progressão do regime prisional. Como já haviam cumprido uma parte das suas penas antes mesmo do julgamento, posto que já se encontravam há muito reclusos, em razão do benefício,  puderam usufruir do regime semiaberto 2 anos após do julgamento. Assim, ambos os condenados cumpriram menos de 7 anos de prisão no regime fechado.

A indignação popular com a libertação dos condenados e o sentimento de impunidade resultou na alteração da Lei dos Crimes Hediondos, por iniciativa da autora Glória Perez que, na época, angariou mais de 1 milhão de assinaturas, num tempo em que a internet não era uma ferramenta popular e as redes sociais sequer existiam. Tratou-se também do primeiro projeto de lei aprovado pela iniciativa popular.

Embora a nova lei não pudesse retroagir para atingir os assassinos de sua filha, o homicídio qualificado foi incluído no rol taxativo de Crimes Hediondos, não permitindo o pagamento de fiança e exigindo que o condenado, cumprisse um tempo muito maior em regime fechado. Entretanto, em 2006 o STF julgou inconstitucional a proibição de progressão ao regime prisional.

Vinte anos depois, as lembranças daquele trágico crime ainda reverberam na memória de muitos brasileiros, sendo um dos casos polícias mais falados e comentados do país, os jornais e as revistas poucas vezes venderam tanto.

A escritora Glória Perez conseguiu forças para seguir adiante e é hoje uma consagrada autora de novelas, colecionando muitos sucessos em sua carreira como “Explode Coração”, “O Clone”, “América”, “Caminho das Índias” e a própria “De Corpo e Alma”. A autora ainda conquistou muitos prêmios importantes em sua carreira, à exemplo do prêmio EMMY International de melhor novela por “Caminho das Índias” em 2009.

Glória Perez também criou um site onde mantém viva a memória da sua filha Daniella, bem como, do brutal crime que ceifou a sua vida: Daniella Perez, Arquivos de um processo (http://www.gloriafperez.net/), onde escreveu no ano passado:

“Agora é que os dois assassinos, Guilherme de Pádua Thomaz e Paula Nogueira Peixoto (na época Paula Thomaz), deviam estar se preparando para sair da cadeia, se sentença de Tribunal do Juri fosse respeitada entre nós! Como era de praxe na época, o juiz deu só 19 anos e alguns meses para cada um deles, de modo a evitar o segundo julgamento, que de acordo com as leis de então, acontecia se a sentença ultrapassasse 20 anos.

Os benefícios da nossa lei penal, somados a essa vantagem inicial, resultaram em apenas 6 anos de cadeia (de spa, melhor dizendo), para a dupla criminosa. Estão aí, livres, leves e soltos, como psicopatas que se prezam. Ela, que passava os dias dormindo, magicamente tirou um diploma de segundo grau na cadeia e entrou sem vestibular numa faculdade. Casou de novo, mudou de nome – hoje é Paula Nogueira Peixoto, pintou o cabelo, retocou a cara e tenta passar despercebida.

Ele casou-se com outra Paula, e como o Thomaz é nome de família, transformou a nova mulher em Paula Thomaz também. Sempre ávido pelos holofotes, usa o crime cometido como capital, e vive dele, dando palestras e fazendo pregações a fieis incautos.” 

“(…) no meu sentimento não se passou nem um dia, nem uma hora, nem um segundo. E nunca vai passar!”

Depois de soltos, Guilherme de Pádua e Paula Thomaz reconstruíram como puderam as suas vidas, mas são constantemente atormentados pelas sombras do passado, pois sabem que a atrocidade que eles cometeram jamais será esquecida pelo público. O “perdão” do anonimato é, com certeza, um luxo que eles nunca mais desfrutarão.

Há um ano, a autora, mãe da atriz, declarou para a revista Contigo!

Se a vida imita a arte ou se a arte que imita a vida, o cruel assassinato da jovem atriz Daniella Perez é, sobretudo, algo difícil de se compreender até hoje, um crime que a ficção das novelas jamais ousou um dia imaginar.

Victor Corrêa

Imagens: Reprodução Revista Veja / Acervo pessoal Glória Perez / Revista Contigo!

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2 thoughts on “Daniella Perez: Um crime minimizado pelas leis brasileiras

  1. Foi admirável a força de Glória Perez em conseguir dar continuidade a “De Corpo e Alma”.Se para nós,meros telespectadores,assistir a novela depois do crime era custoso,imagino como não era pra Glória escrever a novela que era de Daniella sem Daniella alí!Admirável Glória Perez!!!Saudades Daniella Perez!!!Lamentável o fim que as mãos da maldade deram para essa novela.

  2. Espírito Santo é o tal Guilherme de Pádua e a sua Ex, não é assim que trata a igreja evangélica depois que o elemento mata uma ou mais pessoas, fora outros crimes? É simples ser salvo, é só levantar a mãozinha e dizer da boca pra fora que se arrependeu. O que mais me deixa indignada é saber que sujeitos como Guilherme, Bruno “pastor” que matou mais de 50 pessoas e outros…segundo o pastor, estão livres das penas aplicadas pela justiça divina.Como se iludem! Essa religião tem uma grande parcela de culpa, pois querem quantidade e não qualidade. As funções religiosas é fazer o ser humano refletir, evangelizar, ter fé e respeito a Deus, cobrar ação de caridade entre outras, mas jamais fazer (poder de persuação) o membro acreditar que depois de qualquer delito praticado pelo mesmo, poderá levantar a mão e se arrepender que estarão salvos. Pois bem, quem são eles para salvar alguém, não percebem que com isso só faz incentivar aqueles maus elementos a praticar mais delito e depois correr para igreja e se fazer de santo ou ainda por cima fazer que acredite que manifesta o espírito santo ( realmente, podem manifestar qualquer espírito: caboclo, exú, pomba gira… menos Espírito Santo). Entretanto, devem se concientizar que esse teatro, esse comércio e política de salvação tem que acabar. Não adianta ler toda a Bíblia e não entender o que de fato Jesus e Deus representam e o que quer de nós, é tão simples, como o Dez Mandamentos, porém dificícil para algumas pessoas que está no estágio de ignorância e que só pensa no materialismo. Portanto, essas pessoa que comentem delitos devem ser aceita em qualquer religião, a fim de fazer reflexão, melhorar e se arrempeder, mas mesmo assim não é com isso que estão salvas… o mundo gira e a salvação está na “pureza da alma” não o que agente grita “aleluia”, ou se esconde em roupas ridículas, ou pagando dízimos altíssimo, ou louvando bem alto para impressionar quem está do lado e etc…
    Destarte, Guilherme, Paula, Bruno e outros… vão ter que penar muito… o umbrau os esperam!
    Desejo que realmente um dia se purifiquem, mesmo que seja daqui a mil anossss…
    Deus tenha piedade!

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