“Fera Ferida”: Tubiacanga recheada de Lima Barreto

Tendo como entrecho principal a trama de “A Nova Califórnia”, “Fera Ferida” funcionou como uma alegoria de boa parte do universo de Lima Barreto. Em vez de simplesmente criarem tramas paralelas, os autores Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretszohn e Ricardo Linhares optaram por buscar na própria obra de Lima, as histórias necessárias para rechear a novela. Tubiacanga acabou se tornando uma grande festa em homenagem ao escritor.

De “Numa e a ninfa”, a novela apresentou a história de Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana), vereador de sucesso que é conhecido por seus discursos inflamados contra o governo. Só que Numa é uma farsa. Quem escreve o que o vereador fala na tribuna é sua esposa, Rubra Rosa (Suzana Vieira), mulher fogosa e temperamental. Pelo menos é nisso que Numa acredita. Rubra tem um caso com o prefeito Demóstenes (José Wilker) e é ele quem escreve os discursos que acabam por atacar sua própria administração. As noites de amor entre o prefeito e a mulher do vereador são tão quentes que a cama sempre acaba pegando fogo. Não sei se podemos considerar uma homenagem a Dias Gomes, na época desafeto de Aguinaldo desde “Roque Santeiro” (1985), mas a situação lembrava muita o que acontecia com Marcina (Sonia Braga), que ficava em brasa quando sexualmente excitada, na novela “Saramandaia” (1976), do próprio Dias.

Mesmo traindo o marido, Rubra Rosa é uma mãe zelosa. Criou o filho Áureo Poente (Cláudio Fontana) com esmero e deseja que ele consiga um bom casamento. Mas o rapaz se apaixona por Zigfrida Weber (Deborah Evelyn), filha da humilde costureira Margarida (Arlete Salles). Durante a novela, Rubra faz de tudo para acabar com o romance dos dois, mas não consegue. Pra piorar ainda vê seu romance com Demóstenes ameaçado por Perla Menescal (Cláudia Alencar), uma cantora de churrascaria que chega a Tubiacanga para enlouquecer os homens. No final, Demóstenes se casa com Perla, mas continua amante de Rubra, que acaba sendo abandonada por Numa. Ele foge com o fiel secretário, Maxwell Antenor (Giuseppe Oristânio). Maxwell, que sempre fora apaixonado por Zigfrida, durante um tempo se alia a Rubra Rosa na intenção de conquistar sua amada e afastá-la de Áureo, mas os planos não dão certo. A filha da costureira se casa com Áureo, que é eleito prefeito, e se transforma na primeira dama de Tubiacanga.

A chegada de Perla traz à novela outra obra de Lima Barreto: “O homem que sabia javanês”. Em “Fera Ferida” o tal homem é Etevaldo (Pedro Vasconcelos). Filho do culto professor Praxedes (Juca de Oliveira) e de Querubina (Vera Holtz), o rapaz foi mandado para o Rio de Janeiro para que tivesse uma educação melhor. Praxedes gasta todas as suas economias e vive cheio de dívidas para manter os estudos do filho. É com orgulho que diz a todos que Etevaldo é uma das únicas pessoas no Brasil que sabe falar javanês. O que ele não imagina é que o filho é um boa vida que largou os estudos e vive em noitadas com o dinheiro que o pai lhe manda. Além disso, tem um caso com Perla, mulher mais velha que se encanta com a juventude do amante. Quando se vê obrigado a voltar à Tubiacanga, Etevaldo abandona Perla, mas ela vai atrás do rapaz, ameaçando acabar com suas mentiras. Mesmo apaixonada por Etevaldo, Perla se envolve com o prefeito Demóstenes e vira primeira dama de Tubiacanga. Professor Praxedes reúne características de dois personagens de Lima Barreto: o gramático Lobo de “Recordações do escrivão Isaías Caminha” e de Pelino do conto “A Nova Califórnia”. Na novela, Praxedes se apaixona por Maria dos Remédios (Luiza Tomé), a analfabeta esposa de Chico (Tonico Pereira), o dono do bar.

Ilka Tibiriçá (Cássia Kiss) foi um dos grandes sucessos de “Fera Ferida”. A inesquecível caracterização da atriz mostrou ao público a versatilidade da atriz. Até então conhecida por trabalhos densos e dramáticos, Cássia divertiu o público com o jeito espevitado da personagem. O ponto de partida de Ilka foi  a personagem Ismênia, de Triste fim de Policarpo Quaresma”. No livro, Ismênia sofre por ter sido abandonada pelo noivo. Vive com o fantasma de “não conseguir se casar”, uma crítica de Lima à posição da mulher na sociedade. Ilka é mais leve. A opção dos autores da novela por dar um ar cômico aos sofrimentos da solteirona, contribuíram muito para a aceitação do público. Na trama, Ilka, cunhada e secretária do prefeito, uma típica solteirona, acaba se apaixonando por Ataliba Timbó (Paulo Gorgulho), um ex-jogador de futebol. No desenrolar da novela, Ilka descobre que seu amado é impotente e passa a tentar curá-lo usando receitas afrodisíacas. A irmã de Ilka, Salustiana (Joana Fomm) volta a Tubiacanga e tem como um dos principais prazeres, atazanar e humilhar Ilka.

Salustiana Maria é mãe do malandro Cassi Jones (Marcos Winter), personagem de “Clara dos Anjos”, importante romance de Lima Barreto. Clara (Érika Rosa) é filha do carteiro Joaquim (Antônio Pompeo) e de Ingrácia (Maria Ceiça). Criada com todo o cuidado e protegida das maldades da vida, a ingênua Clara acaba caindo na lábia do malandro Cassi Jones e acaba seduzida por ele. Na novela, Ingrácia  era a líder de uma irmandade religiosa formada só por mulheres negras. Sonhava com a filha ficando em seu lugar. Toda a vida de Clara estava traçada. Se casaria com Wotan (Norton Nascimento) e se tornaria a líder espiritual de seu povo. Mas seu romance com Cassi Jones acabou com os planos da mãe. Para piorar, Wotan se apaixona por Teresinha (Camila Pitanga), jovem da irmandade que precisa enfrentar a fúria de Ingrácia. Ao final, é Teresinha e não Clara quem se torna a líder. A filha de Joaquim volta para o colégio interno para terminar seus estudos. Na verdade, a pouca experiência da atriz Érika Rosa contribuiu para o esvaziamento da personagem, que foi perdendo importância no decorrer da novela.

Outra trama envolvendo Cassi Jones é a que sua mãe Salustiana, tentando tirar vantagens financeiras, insinua para o Major Bentes (Lima Duarte) que Cassi é seu filho. Bentes, personagem de “A Nova Califórnia”, vivera um romance com Salustiana na juventude e acreditava realmente na possibilidade de ser pai do malandro.

De “A Nova Califórnia”, Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretszohn e Ricardo Linhares, trouxeram também o personagem Fabrício (Murilo Benício). De pedreiro no conto, o rapaz se transformou em lixeiro na novela. Eternamente apaixonado por Isoldinha (Anna de Aguiar), a esnobe filha de Margarida, o rapaz come o pão que o diabo amassou até conseguir conquistar sua amada. Aliado de Raimundo Flamel, Fabrício termina a novela como vice prefeito de Tubiacanga, para a felicidade da carreirista Isoldinha. Ainda de “A Nova Califórnia”, foi aproveitado o coveiro, batizado de Orestes (Cláudio Marzo). Acostumado a falar com os mortos, todos em Tubiacanga tem medo dele. Orestes é casado com Ivonete (Julciléa Telles) e pai de Vivaldo (André Gonçalves) e Romãozinho (Patrick de Oliveira). Segundo depoimento de Aguinaldo Silva, aquela família não funcionava no vídeo. Os autores resolveram então criar um incêndio criminoso e mataram Ivonete e Vivaldo. Orestes, revoltado com o crime, acaba se aliando a Flamel contra os poderosos da cidade. Mais tarde se apaixona pela tia do amigo, Margarida. Aliás, Margarida aparece em “Clara dos Anjos” como vizinha de Ingrácia.

De todos os personagens, nenhum é mais “Barreteano” do que Afonso Henriques (Otávio Augusto). Afonso funciona como um alter-ego do autor (que se chamava Afonso Henrique) e que também pode ser identificado em vários tipos de sua vasta obra. Aqui, assim como Lima Barreto, o poeta enfrentou os poderosos e acabou caindo em desgraça. Proibido pelo Major Bentes de ter seus escritos publicados, acabou se entregando à bebida, em situação muito semelhante a que o própiro Lima Barreto passou. Flamel, vendo o potencial do poeta, acaba tornando Afonso Henriques o editor chefe do jornal de oposição, resgatando sua auto estima. O poeta ainda se apaixona pela bela Camila (Cláudia Ohana), sobrinha do Professor Praxedes e que sofre de uma estranha doença: passa três meses dormindo e só acorda com o cheiro de seu prato preferido, strogonoff de bacalhau. Infelizmente o amor não se realiza. Camila morre para salvar Flamel e acaba se transformando em um anjo. No último capítulo retorna na pele de uma jornalista que chega a Tubiacanda reacendendo o amor no coração de Afonso Henriques.

Buscando na própria obra de Lima Barreto os entrechos para as tramas paralelas, além de entrelaçá-las, Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretszohn e Ricardo Linhares deram um sabor especial à “Fera Ferida”. Mais do que uma simples adaptação, apresentaram ao público com uma grande homenagem à obra do autor. Todos os universos de Lima em um único lugar. O objetivo de Aguinaldo era o de popularizar Lima Barreto. O autor cumpriu sua parte. Ficou nas mãos do público a procura por um aprofundamento melhor na obra de Barreto.

Walter de Azevedo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>