“Fraternidade” – Capítulo 02

Tiago descobriu que seu irmão amava outro homem e esta revelação pode ter custado a vida do rapaz. Leia o segundo capítulo de “Fraternidade”, folhetim de Jean Cândido Brasileiro.

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Inapropriado para menores de 16 anos

Tiago tremia. Olhou onde Victor havia despencado. O irmão não tinha menor chance de sair dali com vida. Entrou no carro e saiu em disparada pela estrada, fez um retorno e rumou para Belo Horizonte. Só parou o carro quando chegou na porta de casa. Os irmãos viviam com a mãe num belo apartamento no bairro do Belvedere. Não conseguiu subir. Teve medo de que sua mãe visse seu estado de agitação e as manchas de sangue em seu rosto. Mas percebeu que era melhor subir antes que o dia amanhecesse.

Entrou em casa e foi para o banheiro. Entrou debaixo do chuveiro e tomou um longo banho. Em sua cabeça voltavam as imagens do irmão beijando outro homem, da luta no meio da estrada, do olhar de pavor de Victor e, de repente, deu-se conta do que havia acontecido. Começou a chorar. Era um choro doído de quem havia sido traído por todos os lados. Traído pelo destino, pela raiva, pelo irmão. Victor provavelmente estaria morto agora. Ou estaria seriamente machucado. Em sua mente surgiu um turbilhão de pensamentos e flashes. Victor criança, 11 anos, dormindo em seu colo. Victor rindo muito de “Procurando Nemo”. Victor. Victor. Victor. Victor beijando outro homem. Victor beijando. Victor transando com outro homem. Victor dando para um homem. Sentiu asco. Sentiu ânsia de vômito e vomitou. O barulho despertou sua mãe.

Núbia era uma mulher elegante. Havia um ar de nobreza e de arrogância em seu caminhar. Apesar de certa distância, era, no entanto, amorosa. Não sabia demonstrá-lo, mas tinha seus modos de amar. Levantou-se com o barulho e teve a impressão de que alguém estava passando mal.

– Victor? Você está bem, meu filho?

Quase sem forças, Tiago respondeu do banheiro:

– Sou eu, mãe.

– Tiago? Você bebeu?

– Não muito, mas acho que não bateu direito.

– Quer ajuda?

– Não precisa, mãe. Pode voltar a dormir.

Núbia foi até a sala. Não conseguiria dormir novamente. Pegou um cigarro, acendeu e ficou fitando a cidade pela janela. De sua sala ampla com enormes janelas, podia ver o sol nascendo, mas as luzes da torre do Hard Rock Café ainda estavam acesas.

Tiago terminou seu banho. Olhou sua roupa suja e a calça rasgada pelo atrito com o asfalto e se perguntou o que faria com ela. Havia cometido um crime e precisava apagar os rastros. A partir daquele momento, era o treinador frio e racional que entrava em ação. Era preciso apagar aquela mancha de sua história.

Viu que sua mãe estava na sala, mas não queria enfrentá-la naquele momento. Entretanto Núbia sentiu que havia algo estranho no ar e antes que Tiago sumisse pelo quarto, o chamou:

– O Victor ainda não veio com você?

– Não, mãe. Ele saiu da festa bem cedo. Acho que foi encontrar com uma namorada.

– E como foi…

– Mãe, eu to cansado. Ainda to meio virado e quero dormir.

– Você brigou com alguém? Que machucado é esse no rosto?

– Uma briga com um jogador que eu demiti do time. Nada demais. Posso ir dormir agora?

– Bom dia… – disse ela um pouco decepcionada. Queria conversar. Há tempos se sentia distante dos filhos. Desde a morte de Assef, perdeu-se no meio da própria melancolia e só conseguiu retomar sua vida quando voltou ao trabalho. E não mais parou. Tiago não teve outra possibilidade a não ser tomar para si a responsabilidade da educação de Victor. E ela foi se afastando cada vez mais dos filhos a ponto de se sentir uma estranha dentro de sua própria casa.

Desde a morte do marido, Núbia nunca teve um relacionamento realmente duradouro. Um ou outro namorado, mas nenhum que pudesse transformar de fato sua vida. A advogada cuidava das questões jurídicas de uma importante construtora mineira e mantinha a memória de seu marido, importante juiz do estado, intacta. Sabia o preço que precisava pagar.

Eram pouco mais de 10 horas da manhã. Gustavo acordou feliz depois da noite que tivera. E naquele sábado queria se preparar logo para ter mais tempo ao lado de Victor. Os dois combinaram ir ao cinema, tomar um chopp juntos, passear. Animava Gustavo o fato de poder ter um dia normal ao lado de seu namorado.

Acordou com uma enorme vontade de tomar café com um pão bem quentinho. Trocou de roupa e desceu pra comprar na padaria que ficava perto de seu prédio. Cumprimentou o porteiro com animação, falaram sobre o jogo entre Atlético e Cruzeiro que aconteceria naquela tarde. Mas o sorriso de Gustavo se transformou em uma estranha sensação ao sair na rua e dar de cara com o carro de Victor parado na porta. Aproximou-se do carro e viu que estava trancado. A última imagem que teve do namorado foi com a chave na ignição pronto para sair. “Não pode ter sido assalto ou sequestro. Eles teriam levado o carro.” – pensou.

Pegou o celular e ligou para Victor. Chamou algumas vezes e caiu na caixa postal. Ligou novamente. E mais uma vez. Cinco chamadas e nada. Ele não tinha o sono tão pesado. Na sexta vez, caiu direto na caixa postal. Em outra situação, acharia que Victor o estava evitando. Sabia como isso funcionava. Mas o cenário era estranho demais e não conseguiu se segurar.

Passava das duas da tarde. Núbia estava assistindo TV quando o interfone chamou. O porteiro anunciou aquele rapaz, amigo de seu filho, e ela o deixou subir. Quando abriu a porta, não o reconheceu imediatamente, mas pensando melhor, lembrou-se de tê-lo visto ali uma vez.

– Bom dia. A senhora me desculpe ter vindo assim, mas eu queria saber se o Victor tá em casa.

– Não. Ele não dormiu em casa.

– D. Núbia, eu tô preocupado. O Victor esteve comigo ontem. Nós somos muito amigos. Ele saiu da minha casa por volta das 4 da manhã, eu vi quando ele entrou no carro, mas hoje pela manhã o carro dele ainda estava lá e eu não consigo falar com o Victor pelo celular.

Núbia sentiu um frio na espinha. Algo acontecera a seu filho. Mas Tiago interrompeu a conversa.

– O que tá rolando, mãe?

– O Victor… Esse rapaz tá dizendo que ele sumiu…

– Quem é você, cara? – disse o rapaz de modo ríspido.

– Eu sou amigo do Victor. Ele tava comigo…

– Você vem aqui a essa hora pra deixar a minha mãe preocupada com bobagem?

– O que está acontecendo, Tiago?

– Não tá acontecendo nada, mãe. O Victor está bem.

Gustavo interveio:

– Desculpa, cara, mas eu não acho normal que o carro do Victor esteja parado na rua. Eu vi quando ele entrou no carro ontem.

Tiago começou a se sentir acuado. Teve medo que alguém desconfiasse de alguma coisa. Núbia fez a única coisa que seu bom senso mandou. Pegou o telefone e discou o número de Victor. Caixa Postal.

– Eu liguei várias vezes. Chamava até cair. Depois começou a cair direto na Caixa Postal. Eu esperei o máximo que pude. Esperei pra ver se ele iria voltar, mas até agora nada.

Tiago não conseguiu se segurar e pegou Gustavo pelo braço.

– Sai fora daqui!

Núbia sentiu que havia algo realmente errado. Ainda lhe restava um pouco de intuição materna. Sua profissão também lhe dava a necessidade de compreender a fundo tudo o que se passava ao seu redor. Era necessário analisar todos os pontos de vista. E soou ainda mais estranha a reação de Tiago.

– Chega, Tiago! – disse.

– Mãe, a gente nem conhece esse cara. Ele chega aqui dizendo que é amigo do Victor, mas eu nunca vi ele.

– Eu já vi os dois juntos.

– Mãe…

– Cala a boca, Tiago! Eu ainda sou a dona desta casa!

Tiago assustou-se com a veemência de sua mãe. Há muitos anos não a ouvia levantar a voz.  Núbia virou-se para Gustavo com um olhar direto e inquisidor.

– O Victor nunca dormiu fora de casa. Eu também estou achando estranha essa demora dele em chegar.

– Ele esteve comigo ontem até quatro da manhã…

– Onde vocês estavam?

Gustavo gaguejou.

– Meu apartamento… Eu moro no Funcionários.

– Tinha mais alguém lá?

– Não.

Gustavo percebeu que era um momento capital e precisava ir até o fim. Enfrentaria aquele interrogatório. Mas apesar de tentar demonstrar qualquer tipo de segurança, tremia por dentro. Não apenas pela situação daquela sala, mas pelo receio de que qualquer coisa pudesse ter acontecido a Victor. Começou a temer que algo de muito sério tivesse acontecido a ele e esse breve pensamento fez com que seus olhos se enchessem de lágrima. Era impossível que Núbia não notasse.

– Quem é você? O que você é do meu filho?

Gustavo abaixou a cabeça. Chorou. Ergueu os olhos e disse:

– Eu amo o Victor. Eu e ele… estamos juntos.

Tiago sentiu o sangue subir em seu rosto e partiu pra cima de Gustavo.

– É mentira! É mentira! O meu irmão não é viado! O meu irmão é homem!

Gustavo não conseguiu se defender. Tiago foi tão rápido que empurrou a mãe contra o sofá e quebrou um porta-retratos numa mesinha de canto. O treinador poderia matar Gustavo se quisesse, mas Núbia segurou o filho.

– Chega Tiago! Já chega!

Tiago estava descontrolado.

– Ele tá mentindo, mãe! Você acha mesmo que o Victor… O Victor, mãe!

– Larga ele!

Tiago saiu de cima de Gustavo. Os olhos do rapaz eram de susto. Núbia se manteve impávida.

– Vai embora. Volte pra sua casa. Quando o Victor voltar, eu digo a ele pra ligar.

Gustavo saiu do apartamento. O que tinha acabado de viver era bizarro demais, a ponto de deixá-lo tonto. Ligou mais uma vez para Victor. Caixa postal.

***

O cenário era devastador. Núbia pegou o porta-retratos que o ímpeto de Tiago quebrou. Era uma foto de família. Os dois filhos ainda pequenos, ela e Assef. Parecia simbólico demais para o momento. Algo havia realmente se rompido naquela tarde de sábado. Tiago observava tudo e não conseguia se mover do lugar.

– Você sabia? – a mãe perguntou.

– Mãe… Você não tá acreditando…

– Eu não sou idiota, Tiago! É claro que esse rapaz falou a verdade. O que eu quero saber é se VOCÊ sabia.

– Não… Eu não sabia, mãe. – mentiu

Núbia fingiu acreditar.

– Eu quero o Victor aqui em casa. Eu preciso conversar com ele. Procure o seu irmão. Eu quero o Victor aqui.

Tiago sentiu seu peito se esvaziar e uma sensação de gelo fez seus pelos se arrepiarem.

A noite chegou e com ela a madrugada avançava domingo adentro. Nenhuma notícia. Gustavo ligou uma dezena de vezes para Núbia que por fim já nem atendia as ligações.

Núbia tentou dormir, mas não conseguiu. Sua cabeça fervilhava de lembranças, momentos, preocupações. O dia amanheceu e Victor ainda não havia dado notícias. Levantou-se e foi ao quarto do filho desaparecido. Tocou em seu travesseiro, sentiu o perfume que ainda estava ali, deitou-se e adormeceu.

***

Passava de uma da tarde. Núbia levantou-se. Tentou mais uma vez falar com Victor e diante da impossibilidade discou outro número. Suas mãos tremiam.

– Armando. Em nome da nossa amizade, eu preciso de ajuda. – Desabou a chorar.

***

Armando era um capitão do Exército que tinha sido muito amigo de Assef e, por consequência, de Núbia. Quando recebeu o telefonema e ouviu o choro da mulher, foi correndo para seu apartamento. Depois de saber que Victor estava há mais de 24 horas sem dar notícias, acionou todas as diligências que podia. Núbia estava desesperada. O controle que tentara manter nas últimas horas se esvaiu junto com o perfume de Victor do travesseiro. Mas apesar de todos os esforços dos militares, nenhum traço do jogador foi encontrado.

Foram obrigados a procurar Gustavo e a pedir imagens da câmera de segurança de seu prédio, mas justamente naquela semana, o sistema estava em manutenção e nenhuma imagem havia sido captada. O rapaz repetiu algumas dezenas de vezes a história, omitindo apenas o fato de que os dois eram namorados. O domingo chegou ao fim e a certeza de uma tragédia ia se tornando real. Gustavo chorava em sua sala, amparado por Denise, sua melhor amiga. Núbia chorava em seu quarto e não conseguia dormir, mesmo à base de calmantes. Tiago ruminava os fatos que se seguiram à madrugada de sexta e se lembrou de algo importante. Deu um telefonema e marcou um encontro.

***

Eram oito da noite quando Tiago encontrou Ricardo num café. O jogador o encarou e perguntou de modo cínico:

– Veio me pedir desculpas? Viu que eu tava falando a verdade?

– Eu vim pra te dizer que preciso de um favor.

– Eu já fiz tudo o que podia por você, Tiago. Até te mostrei quem é teu irmão de verdade.

– Eu te devolvo o lugar no time. Mas tem uma condição…

– Vai voltar atrás, mas tem condições… Fala logo, Tiago.

– A briga que nós tivemos na boate. Para todos os efeitos, o motivo daquela briga foi a sua saída do time, deu pra entender?

Ricardo ficou sério de repente.

– O que tá pegando, Tiago?

– Tá pegando que você vai ter o seu lugar no time de volta. Mas a condição é simples.

Ricardo entendeu. E alguém próximo àquela mesa ficou com uma pulga atrás da orelha. E foi assim que se fez no “Notícias Diárias”, jornal sensacionalista que desaparecia todos os dias das bancas com suas manchetes sangrentas: “Mãe mata filho e joga o corpo na vala”, “Namorado ciumento corta língua de traidora”… Entre outras pérolas. Jaime estava sempre farejando tragédias para o jornal. Formou-se em Comunicação na melhor faculdade da capital, mas sempre teve um pé na imprensa marrom. Acreditava que esses jornais falavam de coisas tangíveis para a maioria da população e era sobre isso que gostava de escrever, mas uma matéria boa de verdade, daquelas que poderiam lhe dar uma boa promoção, essa ainda não tinha. Mas ao ouvir aquela estranha conversa entre os dois rapazes, farejou uma boa história e agora não iria desistir enquanto não puxasse a última ponta do fio para ter certeza de que estava apenas cismado.

Observou quando Tiago saiu do café e conseguiu enxergar o escudo na janela do carro: MG Sport Club.

Pegou seu tablet e começou a pesquisar imagens. Não foi difícil localizar de quem ouviu a conversa.

– O loiro era Ricardo Amorim e o moreno… Tiago Amud… O treinador…

Os olhos de Jaime percorreram a foto de todo o time e se ateve um momento a um determinado rapaz. Achou interessante um detalhe daquele registro e achou ainda mais interessante quando localizou o nome do jovem: Victor Amud. Um sorriso saiu de leve de seu rosto e sentiu que estava prestes a ter o furo de sua vida. Sentia que era só esperar que as coisas caíssem em seu colo como num passe de mágica.

***

Uma semana se passara desde o desaparecimento de Victor. Imagens do rapaz lotavam as redes sociais com a frase “DESAPARECIDO”. Núbia, que já se mantinha em forma, emagreceu nos oito dias que se seguiram e aparentava 10 anos mais velha.

Cansado de tanto ligar e não ser mais atendido, Gustavo decidiu ir novamente ao apartamento da família de seu namorado. Ao ser anunciado, Núbia pensou alguns segundos antes de deixá-lo subir, mas por fim não tinha mais forças.

Gustavo estava visivelmente abatido. A barba estava por fazer e seus olhos, antes brilhantes, tinham a opacidade dos insones, como as olheiras que sustentava. Núbia abriu a porta.

– Eu não podia mais esperar a sua boa vontade de me atender. Eu também preciso saber o que está acontecendo.

– Não há nada pra saber. Você ainda não viu? Ele desapareceu. Não existem notícias, rastros. E ouvir a sua voz só me dá mais dor.

– Por quê?

– Porque meu filho não confiou em mim. Porque eu nunca tive a chance de dizer se eu concordava ou não com o que ele queria. Foi preciso ele sumir pra você entrar na minha casa e falar que ama o meu filho. Será que você não percebe que eu me sinto a mãe mais displicente do mundo?

– A senhora está exagerando. O Victor te ama. Mas é difícil falar sobre essas coisas. Principalmente quando não existe tanta abertura.

– Que abertura ele queria que eu desse? Ele queria que eu o chamasse e dissesse: “Filho, e então, já escolheu quem você quer? É mulher ou homem?” Faça-me o favor, rapaz…

– Ele pretendia contar. O maior receio dele era o Tiago. Tinha medo de decepcionar o irmão.

– E eu? EU? Se o Victor agora estiver morto, como eu fico?

Gustavo sentiu uma explosão e começou a chorar.

– Ele não tá morto! Ele não pode estar morto! A gente ia ficar junto. A gente ia se casar, depois do campeonato, nós íamos viajar. Um final de semana só pra nós dois. Ele queria ir pra Ouro Preto…

Núbia começou a chorar, mas um choro contido, sem forças.

– O que eu fiz de errado? O que eu deixei de dar pra ele?

***

Na redação do “Notícias Diárias”, Jaime navegava pela internet quando se deparou com uma imagem: “DESAPARECIDO – Victor Amud”. BINGO! Se seu faro estava correto, o detalhe da foto do time do MG Sport Club poderia ser a chave do desaparecimento. Conhecia a família Amud. Sabia quem era Assad Amud, importante juiz falecido há pouco mais de 10 anos. Sabia que Núbia Amud, viúva do juiz, era advogada de uma grande construtora e mantinha uma postura bastante controvertida.

A construtora Edifican havia demitido dois engenheiros no ano anterior. A empresa descobriu que os engenheiros estavam mantendo um relacionamento e ao serem demitidos entraram na justiça dizendo que tinham sido alvo de discriminação. O caso chegou ao Ministério Público e foi Núbia quem conseguiu provar que os dois haviam sido demitidos por pura e simples incompetência. Seria verdadeiramente um prato cheio para os jornais, se o filho da advogada que defendeu uma empresa homofóbica, tivesse sofrido um atentado de mesma natureza. A conversa que o jornalista ouvira outro dia no café era suspeita demais. Por que o treinador pediu a um jogador, recém demitido, que mentisse sobre os reais motivos de uma briga? Qual foi o verdadeiro motivo do embate?

Diante de todas aquelas peças de um intrincado e interessante quebra-cabeça, Júlio buscou na rede social um perfil. O perfil de por quem começaria sua investigação: Henrique Fonseca.

***

Gustavo trouxe da cozinha um café que acabara de passar. Núbia, um pouco mais calma, se deixara consolar pelo rapaz e disse:

– Não pense que eu aceitei, que eu compreendi. Nenhuma mãe espera essa vida de um filho.

Gustavo compreendeu a raiva da mulher, mas não poderia deixá-la falar o que bem entendesse:

– De que vida a senhora está falando? A senhora está falando de amor?

– Você entendeu. Não se faça de cínico.

– Ah! A senhora queria que o Victor namorasse uma mulher, se casasse, tivesse filhos… Às vezes eu também queria isso. Seria mais fácil. Eu não teria medo de andar na rua como eu tenho.

– O mundo não é mais tão hostil. Não precisa se preocupar com isso. Não se sinta tão importante. Na verdade, vocês têm o terrível hábito de acreditarem que são mais especiais e que precisam ser defendidos.

– A senhora está errada. Talvez do alto de seu escritório na Raja Gabáglia, a senhora não veja o que acontece de verdade. Todos os dias, D. Núbia, morrem homens e mulheres vítimas de homofobia. Todos os dias alguém é espancado, violentado, simplesmente porque amam. Como se não bastassem os crimes, “nós”, como a senhora prefere se referir, somos obrigados a ouvir evangélicos, católicos, carolas, padres e pastores, se referirem a… “nós”… como se fôssemos bichos, doentes, longe de Deus… Ainda bem que Deus não se mistura com religião…

– Eu não estou nem um pouco disposta a debater problemas sexuais, garoto. Na verdade, eu prefiro que você tome o mesmo caminho que te trouxe até aqui. E não me procure mais. Porque agora é um caso de polícia. Daqui a pouco, todos os jornais estarão comentando o desaparecimento do Victor.

– E do mesmo modo, se ele não reaparecer, vão parar de falar. E eu pergunto, D. Núbia. A senhora não vai querer saber o que aconteceu de verdade?… Eu vou embora. Mas eu ainda espero ver o Victor entrando no meu apartamento de novo, como ele fez na última vez que eu o vi.

Gustavo abriu a porta e foi embora sem olhar pra trás. Diferente da outra vez que foi àquele apartamento, saiu com a alma lavada, mas ainda com o coração partido.

Núbia permaneceu no mesmo lugar em que estava quando Gustavo fechou a porta atrás de si. Olhou a xícara de café, sentiu asco e a atirou na janela deixando porcelana espalhada pelo chão e uma trinca no vidro.

***

O celular do rapaz tocou. Um número que nunca havia visto. Atendeu. A voz do outro lado da linha perguntou:

– Henrique?

– Sim.

– Você é o Henrique que joga no MG Sport Club?

O rapaz se irritou:

– Quem está falando?

– Desculpe. Meu nome é Jaime Barreto. Eu sou jornalista e gostaria de bater um papo com você.

***

Núbia tomou seu banho e voltou a se sentar em frente à TV. Pulava de um canal a outro e não conseguia se concentrar. Seu coração estava cada vez mais apertado e um nó na garganta lhe prenunciava maus agouros.

A campainha tocou. Núbia correu até a porta e quando abriu, sentiu no olhar de Armando que estava tudo perdido. Seus olhos se encheram de lágrimas, como o do próprio amigo.

– Núbia… eu… eu sinto muito.

Suas pernas perderam força e se deixou desabar aos pés de Armando. Deu um grito. Morreu um pedaço de si com aquela notícia.

NÃO PERCA NA PRÓXIMA SEXTA, O TERCEIRO CAPÍTULO DE “FRATERNIDADE”

PRESENCIOU OU SOFREU ALGUM TIPO DE AGRESSÃO POR HOMOFOBIA? DENUNCIE!

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About Jean Cândido Brasileiro

Ator, escritor e produtor. É inquieto o bastante para não estar envolvido em apenas um projeto. Coordena o projeto de arte "Arte em Andamento" e atualmente prepara a estreia de um novo espetáculo: "Breve Anunciação". Ama o Rio de Janeiro, onde vive desde 2006, mas tem orgulho de suas origens mineiras. Não é preciso dizer que é um apaixonado por teledramaturgia.

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