INTERATIVIDADE: Ela realmente existe?

Podemos entender por interatividade na televisão como uma habilidade de uma mídia de permitir que seu usuário (espectador) exerça influência sobre o conteúdo ou participe através de comunicação mediada.  A chamada interação sempre existiu, embora tenha ocorrido de forma determinada pela emissora para o espectador. Os exemplos mais tradicionais são a participação através de cartas, cupons que dão direito a sorteios, telefones, fax e até mesmo a interação nos programas de auditório que abriam uma nova via de comunicação que não mais a unidirecionada.

porta-da-esperancaNa história da televisão, o SBT sempre foi um campeão de interações com seu espectador. Grande parte do sucesso de suas atrações era graças à entrega de prêmios condicionada a sorteios e promoções, participação em brincadeiras no palco ou por telefone e expressando opinião para determinada situação, quadro ou candidato que o programava viesse a apresentar.  O canal de Silvio Santos não era o único, antes de seu surgimento em 1981 esse tipo de interação foi experimentado e explorado à exaustão nas demais emissoras atuais e extintas e são “formatos” recorrentes nesses 60 anos de TV.

Experiências mais “inovadoras” também aconteceram.vcdecide “Você Decide” (1992/2000) é o exemplo mais recorrente, considerado como a primeira grande interação de massa existente entre o espectador e o canal de TV. Através de perguntas cuja resposta era “sim” ou “não”, o desfecho de uma história era decidido pelo espectador que ligava para a emissora através de um telefone 0800, embora ambas as opções já fossem previstas durante a concepção do programa/roteiro da atração.  A onda do “sim” e “não” lançada pelo “Você Decide” contagiou as emissoras de televisão ao longo da década de 90. Era possível ver sorteios disfarçados de enquete em quase todos os canais, só que ao invés de um telefone grátis se cobrava para participar dos sorteios. Isso encerrou no início dos anos 2000 quando houve a regulamentação e restrição dos serviços 0900 e os chamados telesorteios.

Programa-Linha-DiretaO “Linha Direta” (1990/1990 e 1999/2007) que apresentava casos de polícia não solucionados ou em que os acusados estavam foragidos também utilizava da participação do espectador no fornecimento de pistas para as investigações. A interação era feita a partir de uma central telefônica 24 horas, ou através do site do programa na internet e tudo isso de maneira anônima.

Com a explosão dos videogames era possível assistir a um programa de TV cujo telespectador pudesse comandar os destinos de um personagem. O telefone assumia a função de um joystick seja por teclas específicas ou comando de voz e a performance do jogador/espectador era acompanha em rede nacional. Os programas “TV Pow” (SBT 1984/1986); “Hugo Game” (CNT/Gazeta SP – 1995/1998) e “Garganta e Torcicolo” (MTV Brasil 1997/1998) são exemplos disso.

votar-na-final-do-bbb13A partir da internet e seu serviço de correio eletrônico (e-mail) as participações através de cartas e até mesmo por fax foram substituídas. A popularização do serviço de SMS e a chegada dos reality shows, outra forma de interatividade foi dada ao espectador. “No Limite”, “Big Brother Brasil”, “Casa dos Artistas”, “A Fazenda”, “O Aprendiz”, “Ídolos” e tantos outros deram à pessoa de casa a opção de escolher quem deveria ganhar um prêmio, sair de uma competição, baseado na maioria de votos que um participante obtivesse.

Com a chegada da televisão digital o conceito de interatividade foi amplamente divulgado, sendo um dos fatores que contaram na decisão do padrão atual que nós temos o ISDB-T, desenvolvido no Japão e adaptado para a realidade brasileira. A partir da nova tecnologia seria possível às emissoras de televisão a disponibilização de aplicativos que funcionariam simultaneamente à grande de programação do canal. De clima, noticias de última hora, além de informações sobre uma atração ou personagem, tudo estaria acessível ao espectador a partir de um botão, desde claro permitisse o recurso.

Essa chamada interatividade, porém do modo como vem sendo utilizada, não permite uma interação entre o telespectador e a emissora de televisão. Dá apenas “novas possibilidades”, num conteúdo pensando unidirecionalmente. Nem o modelo de compras a partir da televisão foi implantado, já que precisa de dispositivos de segurança e um canal de retorno adequado (no caso a internet) de modo a levar a informação do espectador à central. Realizar o caminho reverso da transmissão.

O conceito de segunda tela ganhou força à commentsmedida que as pessoas se dedicavam a outras atividades enquanto assistiam TV. Hoje em dia é cada vez mais comum a pessoa estar no seu computador, em seu celular ou tablet e simultaneamente acompanhando uma atração na televisão. A popularização das redes sociais como o Facebook e o Twitter permitiram as emissoras o acompanhamento praticamente em tempo real do que o espectador – conectado à internet – achava sobre uma determinada atração. A interação instantânea ganha força e finalmente, com a internet, é possível um canal de retorno adequado.

Embora quantitativamente esses dados sejam pouco aproveitáveis, já há estudos e investimentos das emissoras de televisão na chamada segunda tela, de modo a desenvolver um novo modelo de negócio ou adaptar o atual às novas expectativas e realidades dos usuários de internet e TV. Num futuro próximo, quem sabe, as redes sociais possam vir a substituir os grupos de discussão, em que determinado grupos de pessoas opinam a respeito de uma novela ou programa e os resultados da pesquisa são responsáveis por definir os destinos e modificações “ao gosto do freguês” de modo a alavancar a audiência da atração.

O que temos visto de concreto é que o espectador da televisão e o usuário da internet, quando juntos exploram os recursos desse segundo canal de modo a obter mais conteúdo – nem que seja da própria televisão – interação com os artistas e produtores das atrações favoritas, além do encontro de pessoas com o mesmo interesse que o seu. Tanto o Facebook e o Twitter são extensões da sala de TV, são bares virtuais que reúnem usuários que se unem por interesses comuns e são capazes de comentar sobre a novela em tempo real que ela é exibida.

redimensiona.phpQuem não se lembra da cascata de postagens com o texto “Oi Oi Oi” realizada pelos usuários do Twitter logo que era exibida a abertura de “Avenida Brasil”? Ou ainda os inúmeros comentários a favor e contra da novela “Salve Jorge”, encaminhados por vários usuários à autoria Gloria Perez? O alvo da vez é Walcyr Carrasco que assim como sua colega antecessora chegou a “bater boca” e desabafar nas redes sociais sobre a quantidade de insatisfações que os telespectadores tinham com sua novela.

Susana Vieira é uma das queridinhas da internet. 1ago2013---susana-vieira-tieta-tata-werneck-nos-bastidores-de-amor-a-vida-1375378990019_997x577Além de suas contas no Twitter e Instagram, a atriz vez por outra deixa claro que entrou nas redes sociais para interagir com seus fãs e não com os artistas. Ela é apenas um dos exemplos de tantos outros que vamos acompanhando. Embora sejam exemplos de “pessoas físicas para pessoas físicas”, são tipos de interação de mídia (ou pessoas que estão e produzem mídia) e seus espectadores. Uma proximidade nunca antes pensada ou promovida por qualquer veículo. Uma comunicação rápida, instantânea e que acaba por sinalizar o quão preparado (ou não) estamos para isso. Será objeto de reflexão do modelo de comunicação (e de negócio) que temos, bem como de pesquisa dos desejos desse espectador. Essas mudanças serão rápidas e cada vez mais presentes, porém como conduziremos a absorveremos essas evoluções tanto do lado de lá da telinha, como do lado de cá, ainda são respostas inexistentes. Seremos a história viva, parte fundamental da criação de um novo modelo de comunicação.

Fernando Dibb

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About Fernando Dibb

Formado em Rádio e TV pela Unesp com extensão de “Formação Executiva em Cinema e TV”. Cursou Jornalismo pela Unesp e mestrado em TV Digital. Escreveu argumentos e roteiro para uma série de TV. Tem paixão pela televisão como um todo e não um gênero específico. A dramaturgia faz parte desse objeto maior de estudo que é a programação de TV.

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