Isso lá é hora de criança ver tevê?

Sou de 1971, tempo no qual era preciso se levantar para mudar de canal e quando as imagens eram em preto e branco – a menos que houvesse, em sua casa, uma daquelas mágicas telas azuis (tão comuns no interior) que, postas diante da TV, deixassem tudo, por exemplo, azul. Nada de TV 3-D ou som surround. Em compensação, até hoje, uma das minhas lembranças mais doces é evocada pelas suaves notas iniciais de uma flauta: era a canção “Alegria da vida”, de Paulo Sérgio Valle, Nelson Motta e Marcos Valle, que dizia: “Todo dia é dia, Toda hora é hora / De saber que este mundo é seu…”. A singela composição embalou toda a minha geração, marcada (intelectual e afetivamente) pelo programa “Vila Sésamo”, que foi ao ar pela Rede Globo de 1972 a 1977. É quase irresistível a vontade de tecer infinitas loas aos intérpretes Aracy Balabanian, Sonia Braga, Armando Bógus e Laerte Morrone (durante anos carregando a pesada cabeçorra do Garibaldo!), mas sigamos em frente.

Ainda devo à minha infância as inúmeras alegrias que emergiam de “Sítio do Picapau Amarelo”, baseado na obra de Monteiro Lobato. Nas minhas mais doces memórias residem os mais de 1.500 capítulos exibidos na TV Globo de março de 1977 a janeiro de 1986, com direção-geral e idealização de Geraldo Casé. Naquela inesquecível casa em Barra de Guaratiba morarão para sempre Zilka Salaberry (D. Benta), Jacyra Sampaio (Tia Nastácia), André Valli (Visconde de Sabugosa), Samuel dos Santos (Tio Barnabé), Tonico Pereira (magistral como Zé Carneiro), Canarinho (Garnizé e Malazarte), Francisco Nagem (Seu Elias) e até um José Mayer pré-estrelato (como Burro Falante). Nas versões mais marcantes, insuperáveis Emílias de Dirce Migliaccio (1977) e Reny de Oliveira (1978 a 1982), e meus companheiros de aventuras infantis Júlio César (Pedrinho, de 1977 a 1980) e Rosana Garcia (Narizinho, de 1977 a 1980). E uma das recordações mais tocantes: um anjinho de asa quebrada interpretado, aos cinco anos, por Gabriela Alves (filha de Tânia Alves). Antes de “ET phone home”, as falas do ser celestial resumiam-se a uma palavra: “saudade”.

Já era adulto quando, quase três décadas depois, iam ao ar no SBT os versos de “Coração com buraquinhos”, canção da novelinha infantil “Chiquititas”. Trabalhei, ao lado de Caio de Andrade, como roteirista nas três últimas temporadas (1999-2001) da adaptação exitosa para o Brasil desse folhetim argentino. Fernanda Souza já não era a protagonista de um elenco que, além da professorinha Flávia Monteiro, trazia as (então) crianças Jonatas Faro (atualmente no ar como o rico e sem caráter Conrado de “Cheias de charme”, novela de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira), Carla Dias (quem não se lembra do insuportável bordão “Inshala!”, proferido sem parar pela jovem requebrante Khadija, de “O Clone”, de Gloria Perez), Sthefany Brito (que ganhou o Prêmio APCA 2002 pela personagem Samira El Adib Rachid, também em “O Clone”) e seu irmão Kayky Brito, bem como Bruno Gagliasso (que, em “América”, de Gloria Perez, quase protagonizou o primeiro beijo gay da TV com o peão vivido por Erom Cordeiro) e Debora Falabella (hoje protagonista da novela das nove, “Avenida Brasil”).

Isto posto, mesmo em enorme preâmbulo, me sinto justificado para visitar algumas das telenovelas que tinham crianças no elenco – e na audiência, buscando e tantas vezes conseguindo entreter o público de calças curtas. Diante da infinidade de produções, me permito escolher as que destaco, com o incontestável critério do “porque sim e pronto”, bem condizente com a piazada que vem a seguir.

Tipos clássicos

Quem é mais velho que eu vai se lembrar de “A pequena órfã”, estrondoso sucesso escrito por Teixeira Filho e Carmem Lídia, e exibido pela TV Excelsior em 1968/69. A pobre menina Toquinho (Patrícia Aires) comia o pão que o diabo amassou nas mãos da dona do orfanato em que vivia, a megera Elza (Riva Nimitz), mas encontrava um pouco de afeto no colo do bondoso Velho Gui, vivido por Dionísio Azevedo. No rastro do êxito, mais sofrimento infantil: “Sozinho no Mundo” (TV Tupi, 1968), com o então menino Guto Franco (filho de Moacyr Franco); “Ricardinho, Sou Criança, Quero Viver” (TV Bandeirantes, 1968), com Dimitri Orico; “Tilim” (TV Record, 1970/1971), com Júlio César Cruz; e “Pingo de Gente” (TV Record, 1971), com Elisa D´Agostino.

Foi na versão de 1968 de “A pequena órfã” que estreou, aos cinco anos de idade, uma das maiores atrizes brasileiras: Gloria Pires. O início de seu esplendor veio na década seguinte: “O Semideus” (TV Globo, 1973 – que ainda tinha os belos olhos azuis de outra menina-prodígio: Isabela Garcia, aos seis anos de idade) e “Duas Vidas” (Globo, 1976), ambas assinadas por Janete Clair, e a marcante Marisa, de “Dancin’ Days” (Globo, 1978), de Gilberto Braga. Filha da ex-presidiária Júlia de Souza Matos (Sonia Braga) e criada pela tia socialite Yolanda Pratini (Joana Fomm), a mimada menina repercutiu tanto que rendeu à sua intérprete o protagonismo da posterior trama das seis, “Cabocla” (Globo, 1979), de Benedito Ruy Barbosa, na qual fazia par romântico com seu futuro marido Fábio Jr., então galã. Dali em diante, sucesso após sucesso, todos merecidos.

Outra celebridade que começou os dias ainda pimpolho é Selton Mello. Seu primeiro trabalho na TV foi na novela “As Três Marias”, que tinha Gloria Pires como uma das protagonistas (ao lado de Nádia Lippi e Maitê Proença), exibida pela Rede Globo em 1980/81. Escrita por Wilson Rocha e Walther Negrão, com base em romance de Rachel de Queiroz, a trama trazia o jovem ator e diretor aos oito anos. Ainda jovem, em 1986, na TV Globo, interpretou o escravo branco Rafael na primeira fase da versão protagonizada por Lucélia Santos e Marcos Paulo de “Sinhá Moça”, escrita por Benedito Ruy Barbosa.

Também talentoso como ator e dublador, e precocemente iniciado na TV, é o irmão de Selton, Danton Mello. A voz oficial de Leonardo DiCaprio no Brasil, Danton estreou em novelas em 1985, aos dez anos de idade, como o pequeno Cuca de “A Gata Comeu” (1985, TV Globo). Adaptação de Ivani Ribeiro de outra novela de sua autoria (“Barba azul”, TV Tupi, 1974), era protagonizada por Christiane Torloni e Nuno Leal Maia, e apresentava uma divertida turma de crianças: no Clube do Curumim, além de Danton, havia Sylvio Perroni (Nanato), Kátia Moura (Adriana), Rafael Alvarez (Cecéu), Juliana Lucas Martin (Verinha) e Juliana Martins (Sueli). A turminha era liderada por Xande, interpretado por Oberdan Júnior – este quase um veterano. Sua estreia ocorreu em 1980, aos dez anos, como Marcelinho em “Coração alado” (de Janete Clair, exibida pela TV Globo); seguindo por “Jogo da vida” (de Sílvio de Abreu, TV Globo, 1981/82), “Sol de verão” (de Manoel Carlos, TV Globo, 1982 – encerrada antes do previsto em função da morte do talentoso protagonista Jardel Filho) e o doce Zezinho, órfão que amolece o coração do avarento Nonô Correia, magistralmente vivido por Ary Fontoura na novela “Amor com amor se paga”, de Ivani Ribeiro, exibida na Globo em 1984.

Quem também estava em “Amor com amor se paga” era uma atriz-ícone da chatice pré-adolescente: Narjara Turetta. A jovem iniciou sua carreira em 1976, ao lado de Paulo Goulart, na novela “Papai Coração”, escrita por José Castellar e exibida na TV Tupi. Entretanto, conquistou fama e prêmios (entre eles, o troféu APCA de atriz revelação) como a filha rebelde de Regina Duarte no clássico seriado “Malu Mulher”, escrito e dirigido por Daniel Filho para a TV Globo em 1979/80. Dramalhão da mais fina estirpe, que marcou uma geração inteira.

Viva México!

Na TV, a dobradinha criança+orfanato parece combinar melhor que leite quente e Toddy. Vide as inúmeras reprises promovidas pelo SBT dos 200 capítulos de “Chispita”, chororô mexicano exibido originalmente em 1983. A encantadora Chispita (a atriz-mirim Lucero, dublada no Brasil por Fernanda Crispim) vive, desde a suposta morte dos pais, num orfanato de freiras, onde é querida por todos e prova que o amor pode superar qualquer desafio.

Mas a pecha de “novela mexicana” como sinônimo de um estilo piegas de dramaturgia advém mesmo de “Carrossel”, telenovela de quase 400 capítulos produzida pela Rede Televisa em 1989, transmitida no Brasil pelo SBT de maio de 1991 a abril de 1992, e reprisada ad nauseam. As aventuras de uma turma de crianças do Ensino Fundamental da Escola Mundial, onde tem aulas com a doce professora Helena (Gabriela Rivero), fizeram história na TV brasileira: sacudiu, pela primeira vez, a hegemonia da TV Globo na audiência. A emissora carioca precisou mexer em sua programação para conter a perda de audiência para o SBT na ocasião.

Lágrimas nacionais

Engana-se quem acha que a cafonice ficou no passado. Escrita por Marcílio Moraes, Margareth Boury e Maria Adelaide Amaral, sob supervisão de Lauro César Muniz, “Sonho Meu” foi ao ar em 1993/94 pela TV Globo. A menina Carolina Pavanelli era filha da sofrida Patrícia França que, para fugir de um marido violento (José de Abreu), se manda para Curitiba. Nisso, perde a guarda da pequena, que fica sob os cuidados da pérfida tia Elisa (Nívea Maria), que a mantém num orfanato, de onde foge. Acaba escondendo-se na casa do Sr. Mazurgsky, o Tio Zé (Elias Gleizer), um velhinho bondoso que se encanta com a garotinha, a quem chama carinhosamente de “Laleska”. Não deve ser à toa que a hoje adulta Pavanelli afirma não querer nunca mais voltar à televisão.

Violência e degradação oriundas do alcoolismo também assaltaram personagens e espectadores de outras telenovelas. Em 1997, a bela Cecília Dassi surgiu em “Por amor”, de Manoel Carlos (TV Globo). Com espantosa maturidade, segurava a onda das ressacas do pai Orestes (Paulo José) e mantinha a fé em sua recuperação. Outro que sofreu com o vício etílico de um adulto foi o menino Lipe (Pedro Malta) em “Coração de estudante”, escrita por Emanoel Jacobina e Carlos Lombardi (TV Globo, 2002). Abandonado ainda bebê pela mãe (Carolina Kasting), vivia com o pai (Fabio Assunção), até a ébria voltar e tentar recuperar sua guarda, causando dor, mas contando com o pequeno para sua volta por cima.

Enterrada viva pela própria madrasta – isso é o que sofreu a jovem protagonista de “Hoje é dia de Maria”, fábula de oito capítulos produzida e dirigida por Luiz Fernando Carvalho (TV Globo, 2005). Com apenas 10 anos, a estreante Carolina Oliveira ganhou elogios da crítica por sua atuação, na qual contracenava com atores de peso como Fernanda Montenegro, Osmar Prado e Juliana Carneiro da Cunha. A jovem voltou a se destacar em “Caminho das Índias”, de Gloria Perez (TV Globo, 2009), como Chanti, uma adolescente indiana que vai contra as tradições ao querer estudar e não se casar. No mesmo folhetim estava Cadu Paschoal que, como o pequeno dalit Hari, mostrou a dura vida que essa casta inferior leva no país, principalmente ao apaixonar-se por Anusha (Karina Ferri), filha de comerciantes de outra esfera social.

Verdadeira história de carisma infantil foram a das crianças Clarinha (Joana Mocarzel) e Francisco (Gabriel Kaufman) em “Páginas da vida”, de Manoel Carlos (TV Globo, 2006). Em especial a menina, portadora de Síndrome de Down, que enfrentava preconceito de sua avó (Lília Cabral), mas era protegida por seu avô (Marcos Caruso) e pelo fantasma de sua mãe (Fernanda Vasconcellos). Foi com inspiração no sucesso da personagem que surgiram as bonecas da Turma da Clarinha, as primeiras com características de síndrome de Down feitas no Brasil, pelas quais a Rede Globo cedeu os direitos de royalties e a renda das vendas em prol do Grupo Síndrome de Down da Associação das Voluntárias do Hospital Infantil Darcy Vargas, em São Paulo. Bravo!

Exploração infantil

Ecos explícitos de “A pequena órfã” ressoaram em “Prova de amor”, exibida em 2005/06 pela TV Record. De autoria de Tiago Santiago, a novela tinha como eixo central a vilania de Vitor Lopo Jr. (Leonardo Vieira), que, por uma paixão irracional por Clarice (Lavínia Vlasak), acaba separando-a de seu marido Daniel (Marcelo Serrado) e de sua filha Nininha (Júlia Maggessi). Esta é levada e explorada nas ruas pela malvada Elza (Vanessa Gerbelli), mas consegue escapar e encontra apoio no velho Gui (Rogério Froes), que será seu grande amigo e protetor.

Outra criança explorada – desta vez sexualmente, e pela própria avó – foi a tímida Kelly (Carol Macedo). Em “Passione” (TV Globo, 2010/2011), escrita por Sílvio de Abreu, Valentina (Dayse Lúcidi) prostitui a jovem neta, como já havia feito com a sua irmã mais velha, Clara (Mariana Ximenes), a antagonista do folhetim. Como se não bastasse, o personagem Gerson (Marcello Antony) ocultava um segredo que, em momentos de especulação, especulou-se que seria a pedofilia (mas acabou sendo frustrante para o público: seu segredo era sentir prazer em ver todo tipo de pessoa fazendo sexo em lugares fétidos). Mondo cane.

Por falar em avó, a malvada Inês (Manoelita Lustosa) não se cansou de usar a pequena neta Salete, de sete anos, para chantagear Téo (Tony Ramos) e lucrar com a morte da filha Fernanda (Vanessa Gerbelli), vítima de bala perdida. A pobre e sofrida criança foi vivida pela menina Bruna Marquezine em “Mulheres Apaixonadas”, de Manoel Carlos (TV Globo, 2003). Mas valeu cada lágrima derramada (mesmo com a proteção do espírito da mãe, que lhe aparecia durante a trama): Bruna ganhou vários reconhecimentos por seu trabalho, como o Prêmio Contigo de atriz infantil e revelação do ano pelo Troféu Imprensa. Não cansada de sofrer, Bruna deu vida à Maria Flor, uma garota que nasceu cega e vive isolada do mundo em “América”, folhetim de Gloria Perez (TV Globo, 2005).

Avôs também podem ser crueis, como atesta Afonso (Lima Duarte), pai de Paco (Reynaldo Gianecchini), por sua vez pai, com Preta (Taís Araújo), de Raí (Sérgio Malheiros). Em “Da cor do pecado”, de João Emanuel Carneiro (TV Globo, 2004), o menino pena até conquistar a confiança do patriarca, que não aceitava ter um neto negro. Este foi o primeiro papel de destaque do jovem Malheiros, que já havia feito participações em programas da TV Globo, como “Gente Inocente”, “Carga Pesada”, “Você Decide” e “Linha Direta”.

Esse dramaturgo, Carneiro, aliás, é hoje o mais legítimo herdeiro de grandes autores como Janete Clair e Gilberto Braga. Em seu atual hit das nove, “Avenida Brasil” (TV Globo), o autor desconstrói clichês e cria catedrais dramatúrgicas sobre os escombros, com temas como abandono e orfandade. Que o diga a (vilã? mocinha?) Nina (Débora Falabella). Na velha história de filho que se achava órfão, mas não é, atolam-se as vidas da protagonista e de Jorginho (Cauã Reymond). Os dois, no passado, antes de embaterem-se com a sensacional Carminha de Adriana Esteves, penaram nas mãos sujas de Nilo (José de Abreu) e foram acarinhados por Lucinda (Vera Holtz). Em torno desta ainda gira um núcleo de personagens infantis: Nice (Roberta Piragibe), Gê (Lucas Simões), Kerem (Hannah Zeitoune), Picolé (João Fernandes), Robson (Jorge Amorim) e Miluce (a fofíssima Gabriella Saraiva).

Das páginas para a tela

Voltando ao passado (e aos êxitos infantolacrimosos), impossível não mencionar a adaptação televisiva do clássico literário “Meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos. Exibida de 1970 a 1971 pela TV Tupi, com roteiro de Ivani Ribeiro, a novela acompanhava a vida do pequeno Zezé (Haroldo Botta), um menino pobre que conversa com o pé de laranja-lima e estabelece uma tocante amizade com Manuel Valadares, o Portuga (Claudio Corrêa e Castro). O mesmo texto de Ivani deu origem a outra adaptação, feita pela TV Bandeirantes em 1980/81, com Alexandre Raymundo como Zezé e o grande Dionísio Azevedo como Portuga. A Bandeirantes, em 1998/99, levou ao ar a sua versão, escrita por Ana Maria Moretzsohn. Protagonizada pelo ruivo Caio Romei (Zezé) e com um Portuga dignissimamente interpretado por Gianfrancesco Guarnieri, a produção não alcançou o mesmo sucesso das versões anteriores.

Outro clássico da literatura que virou novela foi “Éramos seis”, romance de Maria José Dupré adaptado para a tevê por Sílvio de Abreu e Rubens Edwald Filho para o SBT em 1994 (a partir de versão anterior da TV Tupi de 1977). A carinha de menino (13 anos) de Caio Blat (que ainda tem a mesma cara) teve destaque nessa produção, na qual vivia Carlos quando criança (posteriormente o personagem foi vivido por Jandir Ferrari e morria na Revolução de 1932).

Chega de lágrimas

Apesar das circunstâncias dramáticas – avô e mãe disputando a guarda de uma criança –, a trama de “Vereda tropical” (TV Globo, 1984/85), de Carlos Lombardi e Sílvio de Abreu, era divertidíssima. Em meio à italianada barulhenta da Cantina La Tavola de Michele – Georgia Gomide, Mario Gomes, Paulo Betti, Paulo Guarnieri, Angelina Muniz –, estava o pequeno Jonas Torres, filho, na história, de Lucélia Santos e neto de Walmor Chagas. O jovem ator também cativou, com seu jeito marrento e sua voz meio roufenha, como o Bacana do seriado “Armação Ilimitada” (1985-1988). Criado a partir de ideia original dos atores Kadu Moliterno e André de Biasi, que viviam Juba e Lula (hoooooo!!), o seriado, voltado ao público adolescente, esbanjava aventuras, esportes,  romance (os dois eram gamados na jornalista neurastênica Zelda Scott de Andréa Beltrão) e um humor bem carioca (a cargo de Francisco Milani, editor de Zelda, e da amiga gorducha Ronalda Cristina, vivida por Catarina Abdalla). Um marco da década.

O público com hormônios em ebulição também vibrou com o desfile de jovens beldades – Malu Mader, Suzy Rêgo – apresentado por Antônio Calmon e Walther Negrão na novela “Top Model” (TV Globo, 1989). Mas divertida mesmo era a bagunçada trupe composta por filhos do surfista quarentão e ex-hippie Gaspar (Nuno Leal Maia): Elvis Presley (Marcelo Faria), Ringo Starr (Henrique Farias), Jane Fonda (Carol Machado), Olívia (Gabriela Duarte) e John Lennon (Igor Lage), sempre amparado pela apaixonada amiga Naná (Zezé Polessa). É do núcleo ainda o desengonçado sobrinho Alex Jr. (Rodrigo Penna).

Calmon garantiu o sucesso das tramas com toques infanto-juvenis em 1991 com a novela “Vamp”, um estouro na época. Nela, o capitão reformado Jonas Rocha (Reginaldo Farias), viúvo com seis filhos, casa-se com a historiadora Carmem Maura (Joana Fomm), também viúva e com seis filhos. Em meio à dúzia de infantes estavam João Rebello, Fernanda Rodrigues, Juliana Martins, Igor Lage, a ex-paquita Luciana Vendramini, Daniela Camargo, Carol Machado, Bel Kutner, Henrique Farias e Pedro Vasconcellos. Na trama, destaque ainda para os filhos do hilário casal criado por Otávio Augusto e Patrycia Travassos: Matosinho (André Gonçalves) e Matosão (Flávio Silvino). Este, filho do humorista Paulo Silvino, sofreu um violento acidente em 1993, teve de reaprender a falar e andar, e só voltou à TV em 2000 como Paulo, na novela “Laços de Família”, de Manoel Carlos (TV Globo).

Os morcegos sedentos de sangue e humor voltaram a atacar em 2002/03, em “O beijo do vampiro”, do mesmo Antônio Calmon (TV Globo). Além de Cecília Dassi, então com 13 anos (que ganhou Prêmio Contigo de atriz infantil por sua Beatriz), a novela era protagonizada pelo ex-chiquitito Kayky Brito (Prêmio Contigo de ator revelação), que sentia, na trama, aflorarem os instintos herdados do pai, o vampiro Bóris Vladesco (Tarcísio Meira).

Premiados ou não, cativantes ou pentelhos, há sempre espaço para crianças nas telenovelas brasileiras. Afinal, tão clichê como órfãos sofredores é a máxima que decreta que talento não tem idade.

Fabiano Gonçalves

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27 thoughts on “Isso lá é hora de criança ver tevê?

  1. Este texto é um verdadeiro mergulho na história da teledramaturgia brasileira, com o foco todo especial nos nossos miniartistas, muito bom, parabéns! Adorei! beijo

  2. Amei, Fabi!

    Relembrar Vila Sésamo, Sítio do Picapau Amarelo e a musiquinha “Todo dia é dia….” me fez viajar para os meus bons tempos de infância…. Uma verdadeira aula de teledramaturgia!
    Obrigada, amigo!

    • Vamos embarcar juntos, Cláudio! Falando em viagem, me lembrei de Aretha em Plunct, Plact Zum!, da Simony em Balão Mágico… Bom, mas isso é outro texto. Um abraço e obrigado pela visita!

  3. Fabiano, só você mesmo pra fazer voltar esse tempo tão gostoso!!! Mergulhar nesse mundo de magia revendo essas crianças…
    Lendo seu artigo, não tem quem não viaje de volta ao passado. A nossa imaginação vai longe…
    PARABÉNS!!!

  4. Fabiano

    Muito bom o seu texto!

    Vale lembrar também que outras crianças fizeram TV na minha infância, Simony, Jairzinho,Tob e Mike (A turma do Balão Mágico).
    E for pro campo musical, temos o Trem da alegria entre outros…

    Abração

  5. Fabiano, muito interessante. Realmente, nunca tive muita proximidade com estes assuntos e poucas novelas eu acabei por assistir no todo, mas não dá para deixar de lembrar, ao menos de passagem, muitos destes personagens que você relacionou. Na verdade, o tema é muito bom e sempre houve crianças fazendo maravilhas na TV brasileira, como,aliás, você destacou tão bem. Parabéns e abraços.

  6. Curti muito esse texto. Me fez voltar no tempo ao relembrar de programas que marcaram a minha infância, principalmente a versão antiga do Sítio do Picapau Amarelo, que acompanhei desde o início.

    Em tempo: quem interpretou o personagem Minotauro foi um primo meu, Alfredo Luiz (já falecido). De vez em quando relembro as cenas na TV aqui de casa, pois tenho DVDs com todos os capítulos dessa aventura da turma do Sítio. 🙂

    • Nossa, eu me lembro do Minotauro e de como me sentia assustado por aquela figura! Obrigado pela lembrança e pela visita, Alexandre!

  7. Rapaz, ficou ótimo o texto!

    Apesar da maioria dos programas citados não ser da minha época, fiquei bem feliz em saber que não sou a única criança que gosta de lembrar da infância através da televisão!

    E não é que além disso tá muito bem escrito?

    Parabéns!

  8. Amei a matéria. Tenho 43 anos e essa é minha geração! Vila Sésamo, Globinho…E AMO Oberdan Jr e Selton Mello, os melhores atores da geração deles.

  9. Amei! Foi realmente uma viagem no tempo. Recordar “Éramos seis”, Pingo de gente” e “meu pé de laranja lima”,foi demais.

    abraços

  10. E eu, em 1975/76, correspondi-me com a atriz Elisa D’Agostino (que fez “Pingo de Gente” na Record), quando ela já estava na Rede Tupi de Televisão onde fez as novelas, “Ídolo de Pano (Cristina)”, “Ovelha Negra (Tiana)” e “A Viagem (Cláudia)”. Durante esses três trabalhos trocamos cartas. Em 1977, ela estava escalada para fazer uma novela das seis que substituiria “Canção para Isabel”, mas que não foi produzida (optaram por “Cinderela 77”). Elisa D’Agostino desde então sumiu da minha vida…

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