“Pai Herói”: Estreantes e veteranos em grande forma

baldaracciUm vilão adorado pelo público e cujo apelido era Panetone. Assim era Bruno Baldaracci, o antagonista de André Cajarana (Tony Ramos) na novela “Pai Herói”. Mafioso italiano macarrônico, com sotaque carregado e uma relação intensa com a ex-namorada e amante Ana Preta (Gloria Menezes), adorava ópera e fazia de tudo para agradar ao pai Pietro (Manfredo Colassanti). A um belo personagem, um grande ator: Paulo Autran. O intérprete já tinha quase 60 anos e uma sólida carreira no teatro quando deu vida ao carismático vilão (originalmente destinado a Jardel Filho), por meio do qual alcançou grande popularidade.

Outra celebridade também surgiu no seio da família Baldaracci: Jorge Fernando, o intérprete de Cirilo, filho de Bruno e Gilda (Maria Fernanda). Um ano antes, o ator/diretor havia despontado no seriado “Ciranda, Cirandinha”, e então estreava em novelas como o herdeiro dos negócios de seu pai – e do ódio pelo meio-irmão Cajarana. Ligados ainda ao núcleo de Bruno Baldaracci estavam os outros filhos, Romão (Fernando Eiras), um padre, e Clara (Rejane Marques); o irmão Rafael (Jonas Bloch), sua cunhada Filhinha (Maria Helena Dias) e o sobrinho Gil (Rogério Bacelar). Havia ainda seu braço direito nos negócios (e capanga) Genésio Camargo (mais uma interpretação deliciosa de Flávio Migliaccio). Merece atenção ainda Adélia (Lícia Magna), uma espécie de governanta da família Baldaracci, nutre uma paixão secreta pelo patriarca Pietro e acaba, ao final, conseguindo casar-se com o patrão.

Como o terceiro vértice do triângulo que envolvia André Cajarana e Carina (Elizabeth Savala), a suburbana Ana Preta também caiu nas graças do público. Gloria Menezes criou um tipo popular, verdadeiro e espontâneo, ligado à gafieira (dona da casa Flor de Lys) e ao samba – seu desfile no Grêmio Recreativo Beija-Flor de Nilópolis, município onde morava, no último capítulo, marcou a memória de muitos espectadores. O personagem foi criado para Eva Wilma, que, em função do contrato que a ligava à TV Tupi, não pôde participar. Ana Preta era mãe de Jennyfer/Jenny (Sônia Regina), fruto do romance com Baldaracci na adolescência, e patroa, na gafieira Flor de Lys, do leão-de-chácara Teodoro (Carlão Elegante), de Lindaura (Lúcia Helena), e das bailarinas Tarsila (Tessy Callado) e Nancy (Regina Dourado, outra estreante na TV).

Do lado dos ricos

A escolha de Tony Ramos e Elizabeth Savala para os protagonistas André e Carina advém de outra dobradinha de sucesso: um ano antes, os atores haviam feito bastante sucesso como o casal Márcio e Lili na telenovela anterior de Janete Clair, “O Astro”. Participaram das duas produções, além dos protagonistas, Flávio Migliaccio, Dionísio Azevedo (aqui interpretando Nestor Garcia, pai de Ana Preta, marcado por um tiro que levou do pai de André, Malta Cajarana [Lima Duarte, que também interpretava o avô]), e Hélio Ary (dr. Soares, advogado de André).

Os Limeira Brandão, família da qual Carina fazia parte, eram dominados pela matriarca Januária, criação memorável de Lélia Abramo. Nascida em uma fazenda no interior de Minas Gerais, era dona de temperamento forte e gostava de ter o controle de tudo. Teve 12 filhos, entre eles o pai de Carina, Ângelo, que morreu. Ele era casado com Norah (Beatriz Segall), que se apaixona pelo cunhado Horácio (Emiliano Queiroz), com quem vive um romance proibido, até que se casam sem a aprovação da matriarca. Outro filho de Januária é Reginaldo (Ivan Cândido), compositor de música popular que ensina piano e se apresenta numa boate. Ele é casado com Irene (Yara Lins), diretora de um colégio, e pai do menino Rubens. O casal cria a filha escusa de Carina, Ângela (Alexandra Vasconcellos/Isabela Garcia), na primeira parte da trama.

Enquanto Januária busca fazer de Reinaldo prefeito de Lagoa Alegre, município que fica a 30 km de Paço Alegre, outro filho, Haroldo (Nildo Parente), é efetivamente prefeito desta cidade e tenta eleger-se vereador. Ele é casado com Jussara (Suzana Faini), com quem tem duas filhas: Pia e Jeane. É irmão de Hilário (Reinaldo Gonzaga), marido de Odete (Thaís de Andrade) e pai de Patrícia e Ângelo. Hilário e Odete trabalham nas empresas do Grupo Econômico Limeira Brandão, sendo ela a única nora que tem coragem de enfrentar a temida dona Januária.

Outro grande destaque da família Limeira Brandão foi a desequilibrada Walkiria, brilhantemente interpretada por Rosamaria Murtinho. A única filha de Januária sofre de esquizofrenia e tem surtos quando a barra pesa. A moça foi noiva, por uma década, do primo César Reis (Carlos Zara), filho de Eugênia (Monah Delacy). Quando vê que desse mato não sairá coelho, dirige seu afeto ao aproveitador Gustavo Gurgel (Cláudio Cavalcanti), cujo nome verdadeiro é Benedito da Conceição. Ele, um chofer sempre bem arrumado e alegre, finge ser um decorador de interiores gay para que o romance dos dois fique camuflado. Gustavo envolve-se também com a dançarina Tarsila, com quem tem um filho, mas não consegue esquecer Walkiria, a quem desposa no final. Mas nem tudo são flores: condenada a dois anos em um manicômio judicial por ter matado e enterrado Helen (Érica Kupper), moça que pegou, por brincadeira, um par de brincos que Walkiria havia roubado de Carina (por acreditar que pertenceram aos seus antepassados). Após o casamento com Gustavo, na saída da igreja, Walkiria é levada pelos policiais para a internação.

Confusão amorosa

Uma trama paralela que se destacou na novela e deu visibilidade a seus intérpretes foi a que envolveu uma enfermeira, um ex-ladrão, um religioso e seu irmão. A bela e dedicada Aline (Nádia Lippi) é ajudante do padre Romão na creche da igreja. Ela conhece Cirilo ao cuidar de seus ferimentos no ambulatório em que trabalha – ele encanta-se com a ruivinha e os dois engatam um romance. Mas nada é tão simples. Genésio, que é pai da ex-namorada de Cirilo, Lena (Ana Lúcia Ribeiro), conta ao patrão Baldaracci que Aline, atual paquera do rapaz, é filha de Leôncio Souza (Paulo Gonçalves), um ex-funcionário odiado pelo mafioso. Cirilo e Aline ficam noivos, mas Baldaracci obriga o filho a desfazer o compromisso. Enquanto a moça está desolada, se envolve com Pepo (Osmar Prado), um fugitivo da polícia após um assalto a um supermercado no Leblon. Ele acaba preso e Aline o visita regularmente, prometendo esperá-lo sair da cadeia para se casarem. Porém, graças a uma artimanha de Cirilo, ela não consegue estar presente quando ele é solto – o que mina o romance dos dois.

Em paralelo, o padre Romão sofre secretamente de amores pela bela assistente. Quando não aguenta mais, declara-se. A moça exige então que ele largue a batina para que possam viver o romance. Romão, no entanto, decide ser fiel ao celibato e pede transferência para outra paróquia. No final da novela, quem teve tantos pretendentes acaba sozinha: o padre se vai, Cirilo se casa com Lena e Pepo vai morar com a dançarina Nancy.

Em meio a um elenco estrelar, destaca-se, além da participação dos bailarinos franceses Attilio Labis e Françoise Legreé, oriundos da Ópera de Paris, que dançaram nas encenações dos espetáculos O Lago dos Cisnes e Giselle, montados especialmente para a novela. Outra rainha das sapatilhas integrou o elenco da produção, mas com papel fixo: Áurea Hammerli (que posteriormente se tornaria prima ballerina do Theatro Municipal do RJ) interpretou Lia Ribeiro, bailarina clássica de família pobre que recebe suporte financeiro de Carina e, em determinado momento, é alvo de interesse do vilão César, que não dava ponto sem nó.

Fabiano Gonçalves

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About Fabiano Gonçalves

Publicitário e roteirista formado no Maurits Binger Film Institute de Amsterdã. Co-roteirista do longa "O Amor Está no Ar" e programas de TV, como a novela "Chiquititas" (SBT, 1998/2000). Atualmente é redator no Departamento Nacional do Senac e escreve sobre música e musicais no site Movimento.com.

3 thoughts on ““Pai Herói”: Estreantes e veteranos em grande forma

  1. Nossa Fabiano, Janete Clair também gostava de trabalhar com um elenco numeroso, assim como sua pupila Gloria Perez. Só que ao que tudo indica, todo mundo tinha hitória e ninguém entrava calado e saia mudo. Confesso que tudo o que sei de novela e enredos mirabolantes, aprendi lendo em livros destinados ao tema como o de Ismael Fernandes e fuçando em sites que disponibilizam resumo de novelas e li tudo, exatamente tudo sobre roteiros de Janete e Ivani Ribeiro que trabalhava com elenco menor e nem por isso menos interessante do que Janete. Lamento não ter podido conhecer ou assistir a tudo o que a maga das oito, hoje nove escreveu. Assisti ao remake de Selva de Pedra e adorei, embora não fosse ela a adaptadora. Pai Herói merece uma nova versão, mas será que tem que ser na faixa das onze ou as seis da tarde como ja fizeram com os enredos de Janete? Porque não levar na faixa das nove uma nova versão desse clássico, com toda a modernidade que temos hoje em dia? Um fato lamentável, é ver Elizabeth Savalla nunca mais ter trabalhado com Tony Ramos, eles parecem feitos um pro outro. Savalla a anos está relegada a trabalhar com Walcyr Carrasco. Será que nem um outro autor gosta dela? Eu imagino que se não fosse por Walcyr, essa grande atriz estaria a margem da TV assim como a maravilhosa Lucélia Santos. Belo enredo e seu texto mais ainda. Aguardo ansioso o teledossie sobre a trilha sonora dessa trama. Mirrors de Sally Oldfield, tema de Walkiria se não me engano, adoro!!! Abraços.

    • Taí uma sugestão boa: um remake de Pai Herói. Obrigado pela participação e pela colaboração, Vagner! Logo logo estará no ar o texto sobre a trilha sonora. Espero sua visita! Um abraço!

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