Se não quer, tem quem queira…

Os tempos mudaram: a hegemonia da Rede Globo é questionável, e a própria televisão em si já deixou de ser o centro das atenções como fonte de informação e entretenimento. Será? Lugares comuns são menos categóricos do que imaginamos e o suposto caráter absoluto de suas afirmações pode ser problematizado.

Ignorado por alguns, desdenhado por muitos e abertamente desejado pela maioria, o contrato fixo com a emissora da família Marinho continua sendo uma das principais ambições da classe artística. Que emita a primeira vaia quem nunca associou, ainda que equivocadamente, reconhecimento nacional com sucesso profissional. Pois, até as pessoas que se identificam mais com o universo do teatro admitem que um pouco de mídia aumenta (e muito) o valor da bilheteria. Entretanto, o que acontece quando o benefício financeiro não acompanha o status da função? Ou pior, quando o ostracismo que substitui as antigas promessas se torna uma realidade tão imutável quanto o salário que mais aprisiona do que assegura? Depois do período definido como “geladeira”, só há duas alternativas: permanecer no corpo de baile ou tentar ser a primeira bailarina de outra companhia. Por diversas razões, ex-globais optam pela segunda opção e os desdobramentos dessa escolha ficam a cargo não apenas da sorte, mas também da sagacidade de cada um em conduzir a sua carreira individual.

Abarcando uma parcela considerável dos antigos funcionários da empresa concorrente, a Rede Record se tornou uma competidora de peso na luta pela maior audiência e durante algum tempo causou abalos sísmicos nas convicções televisivas. Com enredos instigantes, qualidade técnica e atuações expressivas, a principal rival da Rede Globo se mostrou generosa com esses artistas dando papéis de destaque para eles.

E o que fazer quando a emissora de origem, através de lente alheia, reconhece um talento ignorado? O retorno seria o melhor caminho? Se pegarmos como exemplo o ator Gabriel Braga Nunes, a resposta obviamente será afirmativa. Na reprise de “Anjo Mau” (Maria Adelaide Amaral, 1997) no Canal Viva, já podemos ver o seu excelente desempenho na pele do mimado Olavinho Ferraz, mas a fama só veio mesmo devido à substituição de Fábio Assunção em “Insensato Coração” (Gilberto Braga e Ricardo Linhares, 2011). Entretanto, entre o coadjuvante e o vilão, Braga Nunes protagonizou Essas mulheres” (Bosco Brasil e Cristianne Fridman, 2005) e participou da bem sucedida “Poder Paralelo” (Lauro César Muniz, 2009) entre outras produções da Rede Record. Sem sombra de dúvidas, a escolha da Globo não foi um tiro no escuro…

Destino parecido teve Marcelo Serrado, eternizado como o cômico mordomo Crô em “Fina Estampa” (Aguinaldo Silva, 2011). Embora com mais de uma década de casa, o prestígio global chegou depois de sua excursão pelas telenovelas da oponente. Obra do acaso ou caso pensado? Golpe de sorte ou perspicácia? O fato é que tanto Serrado quanto Braga Nunes souberam aproveitar o melhor de uma e de outra emissora nos períodos certos. Participaram da Era de Ouro da Record e agora colhem os frutos consequentes da projeção da Globo.

Em uma escala menor, Bianca Rinaldi e Tuca Andrada seguiram o mesmo exemplo dos atores anteriores, mas se analisarmos bem, eles são exceções de um grande contingente que foi e não voltou: Paloma Duarte, Renata Dominguez, Leonardo Vieira, Lucinha Lins, Leonardo Brício, Victor Fasano, entre outros. Por causa do tratamento vip, papéis expressivos ou contracheques mais expressivos ainda, o fato é que nem sempre o regresso está nos planos dos ex-globais; talvez por possuírem uma postura indiferente à mídia, ou por medo de trocarem o certo pelo duvidoso. Afinal, se “quem faz um cesto faz um cento”, quem esquece uma vez pode não lembrar nunca mais.

Outros artistas que também se viram jogados no ostracismo pela Vênus Platinada e conseguiram bons louros na concorrente foram autores de peso como Lauro César Muniz, escritor de sucessos como “Roda de Fogo” e “Escalada”, além de Tiago Santiago que vivia com o patamar de colaborador de Antônio Calmon em “Vamp” e “Olho no Olho” que garantiu bons momentos para a emissora com “Prova de Amor” e a saga “Mutantes” e agora Carlos Lombardi, autor de pérolas como “Vereda Tropical”, “Quatro por Quatro”, “Bebê a Bordo”, entre várias outras, mas que nunca teve chance de se mostrar no horário nobre, mesmo mostrando capacidade de sobra para isso. Atualmente, o autor também engrossa o rol dos egressos depois de ter ficado três anos tentando emplacar uma sinopse e agora escreve “Pecado Mortal”, já considerada uma de suas melhores novelas.

E tem mais um fator que não foi levado em conta, e de longe é o determinante para o êxito de qualquer uma das atitudes: a recepção do público. É claro que a chance de destaque aparece por causa do talento individual, mas a permanência do refletor é decidida de acordo com a aclamação ou rejeição do espectador. É basicamente isso que vai fazer com que o artista que arriscou uma volta lucre com propagandas ou queime de vez o filme. O atual apresentador Rodrigo Faro teve personagens marcantes tanto em “O Cravo e a Rosa“ (Walcyr Carrasco, 2001) quanto em “Chocolate com Pimenta” (Walcyr Carrasco, 2003) e em outras produções da Rede Globo, mas nenhuma das participações supera o que ele alcançou conduzindo os programas da Record.

O bom filho a casa torna … mas apenas mediante um motivo igualmente bom.

Helena Hamam

2 thoughts on “Se não quer, tem quem queira…

  1. Ainda bem que mudaram, tinha aquela história de que o ator que saisse da Globo e fosse para outra emissora nunca mais voltaria pra emissora. Vários nomes importantes sairam da Record como Luma Costa, Andréa Horta, Tuca Andrada, André Bankoff, Louise D’Tuani e muitos outros. Paloma Duarte, temos que bater palmas pra ela, em Pecado Mortal ela está roubando a cena, o papel dela foi certeiro e escolhido pra ela, Paloma ESTÁ PERFEITA. Seu melhor papel em anos,

    • Realmente, Paloma Duarte está numa ótima forma. O texto flui na boca dela como rio que corre pro mar.

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