“Pai Herói”: Um mosaico de estilos musicais

thumbtrilhapaiPai e filho, de costas e de mãos dadas, caminham em meio a uma alameda. A imagem é um quebra-cabeça que vai, aos poucos, sendo montado até revelar, ao final, a figura ausente do pai. A ação compunha a abertura da novela Pai Herói, escrita por Janete Clair e exibida em 1979. As imagens eram embaladas por uma marcante canção: Pai, composta e interpretada por Fábio Jr.Apresentada um ano antes, no episódio Toma que o filho é teu, do seriado . A emotiva letra dizia: “Pai / Você foi meu herói, meu bandido / Hoje é mais, muito mais que um amigo / Nem você, nem ninguém tá sozinho / Você faz parte desse caminho / Que hoje eu sigo em paz”. Além de tornar-se emblemática da novela, a canção catapultou seu intérprete à fama.

Outra cantora e compositora que alcançou o estrelato com uma canção da trilha sonora de Pai Herói foi Denise Emmer, filha da autora, Janete Clair, e do dramaturgo Dias Gomes. Sua música Alouette, em francês, embalou os dramas da personagem Carina (Elizabeth Savala). Denise lançou, em 1980, um compacto simples com a canção, que vendeu mais de 300 mil cópias, rendendo à intérprete o Disco de Ouro e a participação em vários programas de televisão, como o Fantástico.

Um intérprete “da roça” para um personagem criado no interior. Era de autoria de Renato Teixeira o tema de André Cajarana (Tony Ramos). A canção era Cavalo Bravo. Fez sucesso, mas nada comparado ao estouro que foi Romaria, do mesmo intérprete, que integrou a trilha sonora, em 1978, da novela Maria, Maria, de Manoel Carlos, exibida pela TV Globo no horário das seis.

Por falar em estouro, um dos grandes estrondos da trilha de Pai Herói foi uma composição de Gonzaguinha interpretada pela rainha Maria Bethânia. “Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder / O que não dá mais pra ocultar”: as palavras e a interpretação à flor da pele da canção Explode Coração acompanharam as idas e vindas do romance de André e Carina. A faixa integrava ainda o LP Álibi – o primeiro disco de uma cantora brasileira a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas.

O romance de André e Ana Preta (Glória Menezes) também tinha seu tema: I’d Rather Hurt Myself, na voz do norte-americano Randy Brown. Além da novela, a música acompanhava também um voo de asa-delta em comercial de cigarros, ganhando, daí, seu apelido de “melô da asa”.

Mas o negócio de Ana Preta era samba e gafieira, por isso, grandes intérpretes, como Alcione e Beth Carvalho, interpretavam canções que acompanhavam a personagem. Um dos temas era Pode Esperar, composto por R. Corrêa / S. Son e interpretado pela Marrom. Já Beth Carvalho emprestava sua voz a Passarinho, samba composto por Chatim. A poética letra dizia: “Quero viver como um passarinho / Cantar, voar sem direção”. Para acompanhar os embalos da gafieira Flor de Lys, outros grandes sambistas apareciam na trilha da novela, como Roberto Ribeiro, que cantava o samba Meu Drama, composto por Silas de Oliveira e J. Ilarindo. Para os momentos mais reflexivos, Paulinho da Viola, compositor e intérprete de Nos Horizontes do Mundo, ou a cantora country canadense Anne Murray, cuja voz na romântica canção You Needed Me (de Randy Goodrum) fez grande sucesso acompanhando as lágrimas de amor de Ana Preta.

O tema do carismático vilão Bruno Baldaracci (Paulo Autran) não poderia ser em outro idioma que não o italiano. Composta por Giorgio Calabrese e Memo Remigi, e interpretada por este, a canção …E un Altro Giorno se ne Va, trouxe o idioma de Dante às rádios brasileiras. Também em italiano, o grupo Collage gravou o tema de amor de Aline (Nádia Lippi) e Romão (Fernando Eiras): era Piano… Piano, m’Innamorai di Te, escrito por A. de Sanctis, M. Marrocchi e V. Tariciotti.

Aline dividia seu coração também com Pepo (Osmar Prado), e esse amor bandido era embalado pela mela-cueca How You Gonna See Me Now?, composto e interpretado pelo roqueiro Alice Cooper. Esse personagem de Osmar Prado tinha também seu próprio tema: uma canção obscura de Guilherme Arantes, 14 Anos. A sapeca Aline ainda despertou a paixão de outro rapaz, Cirilo (Jorge Fernando), e as cenas desse personagem eram acompanhadas pela voz do grego radicado no Brasil Patrick Dimon (nome artístico de Konstantynos Kazakos). A canção Pigeon Without a Dove, composta por Richard Anthony, era uma adaptação mascarada de ária da ópera O Guarani, de Carlos Gomes.

Para a esquizofrênica Walkiria, personagem imortalizado por Rosamaria Murtinho, a voz da cantora folk irlandesa Sally Oldfield, autora e intérprete da alegrinha Mirrors. Os momentos mais intimistas da personagem contavam com a voz de Marina, em composição dela e de seu irmão, o poeta Antonio Cícero: a bela canção A Chave do Mundo.

Três canções completavam o LP com a trilha sonora nacional de Pai Herói: Espírito Esportivo, interpretada e escrita por Moraes Moreira (ao lado de Abel Silva); Homem Calado, de J. Petrolino e Carlinhos Vergueiro, na voz deste; e Vivendo Perigosamente, interpretada pelo trompetista Márcio Montarroyos, composta pelo músico e pelo baterista Alfredo Dias Gomes (filho do dramaturgo e de Janete Clair) especialmente para as cenas de ação da novela.

Já na trilha sonora internacional, alguns clássicos dos anos 1970. Gloria Gaynor, muito antes de tornar-se diva gay no filme Priscilla, A Rainha do Deserto, de Stephan Elliott, embalava as pistas e o LP com sua animada I Will Survive, composta por D. Fekaris e F. Perren. Empolgação também não faltava à banda Blondie, da qual fazia parte a cantora Debbie Harry, autora e intérprete do hit Heart of Glass (composta também por Chris Stein). Outros clássicos disco que integravam a trilha eram Aa Aa Uu Aa Ee, composta e interpretada por Zack Ferguson, e Sun Is Here, escrita por B. Byrd e K. Yancey, e interpretada por Sun.

Romances não faltaram em Pai Herói – e nem baladas para acompanhá-los. Dos irmãos ítalo-canadenses Ross e Gino Vannelli, interpretada por este último, a canção I Just Wanna Stop embalou muitos amores (e dores de cotovelo) pelo Brasil. A banda de Nova Jérsei Dr. Hook (formalmente conhecida como Dr. Hook & The Medicine Show) interpretava a pop Sharing the Night Together, escrita por A. Aldridge e E. Struzick. Mais uma canção que compunha a parada de sucessos dessa sensacional trilha sonora.

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8 thoughts on ““Pai Herói”: Um mosaico de estilos musicais

  1. Remake de Pai Herói não! A original de Janete tem que ser lançada em DVD ou com algum milagre, reprisada no Viva, isso sim rs!
    Excelente análise sobre as mega trilhas desse novelão!

  2. Penso que a Globo não gosta dessa novela, algo sério deve ter acontecido. Eles mal falam nela… Uma pena, pois tanto a novela quanto os elepês, marcaram minha infância…

  3. Estou desde o iníco da novela pesquisando na internet. Esse texto não é aprofundado, mas foi o melhor que li até agora.
    Dá bastante elementos pra conversar sobre a trilha nacional.

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