Um certo Volpone

capasonhoEm fevereiro de 1985, a Rede Globo começava a apresentar para seu público das 19h, a controversa novela “Um Sonho a Mais”. Entre acertos e tropeços, a trama conseguiu uma das maiores médias de audiência do horário, mas também foi uma das mais criticadas. Por isso mesmo, percebe-se grande curiosidade de parte do público que não conferiu a trama de Daniel Más. Vamos relembrar essa história, afinal de contas, Um Sonho a Mais não faz mal.

Daniel Más já havia escrito uma novela nos primórdios da Rede Globo, “Um Rosto de Mulher” (1966), mas depois acabou direcionando sua carreira apenas para o jornalismo. Más se dedicou principalmente ao colunismo social, tendo escrito para os jornais O Globo e Última Hora. Em 1982 assinou, ao lado da dramaturga Leilah Assumpção, a minissérie “Avenida Paulista”, a segunda do gênero produzida pela Globo. No ano seguinte a parceria se repetiria com “Moinhos de Vento”, minissérie agraciada na Espanha com o prêmio ONDAS. Em 1984, Daniel colaborou com Lauro César Muniz na novela “Transas e Caretas”, o que carimbou seu passaporte para a carreira solo.

umsonhoamais_logoAnimada com o sucesso de “Vereda Tropical” (1984/1985) de Carlos Lombardi, antigo colaborador de Sílvio de Abreu, às 19h, a emissora carioca achou por bem continuar apostando nos “novatos” e encomendou a Daniel a próxima trama do horário. Daniel escreveria sua novela a partir de um argumento dele e de Lauro César Muniz baseado na peça teatral “Volpone”, do inglês Bem Johnson, contemporâneo de Shakespeare. Assim surgiu “Um Sonho a Mais”.

Antônio Carlos Volpone (Ney Latorraca) fugiu do Brasil há muitos anos. Acusado da morte de seu sogro, o milionário Telles (Rubens Corrêa), o rapaz se viu obrigado a abandonar tudo para não ser preso. Sua maior perda: o grande amor de sua vida, Stela (Sílvia Bandeira).

Morando há tempos no exterior, Volpone fez fortuna. Acompanhado pelo fiel escudeiro, Mosca (Marco Nanini), corre o mundo ganhando dinheiro e se divertindo.

silvia-um-sonhoEm uma viagem ao Egito, aos pés das pirâmides, acontece o inesperado: Volpone vê Stela. Ainda linda, mesmo com o passar dos anos, Stela mais uma vez toca o coração de seu antigo amor. Sem ter coragem de se aproximar e revelar sua presença, Volpone a observa de longe. Junto com sua amada está Mônica (Tássia Camargo), filha dela e de Aranha (Fúlvio Stefanini), antigo rival de Volpone e com quem Stela acabara se casando. A visão da ex-mulher acende no protagonista a vontade de justiça, de trazer a verdade à tona sobre os acontecimentos do passado e, principalmente, de provar sua inocência. Volpone não esconde a mágoa que sente por Stela não ter acreditado nele. Por isso, seus planos ganham um novo elemento: a vingança.

Para que não seja preso assim que chegue ao Brasil, Volpone usa seu dinheiro para montar uma grande farsa. Consegue falsos laudos médicos alegando uma doença terminal e declara que quer morrer no Brasil. Com isso se transforma no “moribundo da bolha”, um homem fadado a viver seus últimos dias dentro de uma bolha de plástico, ligado a tubos e aparelhos que garantem sua sobrevivência. Sua chegada causa grande estardalhaço nos meios de comunicação e entre aqueles que conviveram com ele no passado, principalmente Stela e Aranha. “Preso” em uma casa adaptada para receber todo o seu aparato médico, além de Mosca, Volpone passa a contar com outro amigo do passado, Lula (Antônio Pedro). Avisado de todo o esquema e das reais intenções de Volpone, Lula se torna um de seus maiores aliados. Juntam-se a ele dona Guiomar (Henriqueta Brieba), uma espécie de governanta, e Sandra (Márcia Porto), que faz as vezes de enfermeira.

ney-um-sonhoComo não pode sair de sua redoma de plástico e vive sempre sob a vigilância do detetive Magalhães (Marcus Vinícius), Volpone resolve criar vários tipos. Com esses personagens ele poderá sair da mansão e ainda transitar livremente entre os suspeitos de terem matado Telles. Os tipos são: Anabela Freire, secretária; Nilo Peixe, médico responsável pelo tratamento de Volpone; Augusto Mello Sampaio, advogado; e André Silva, motorista. Além de todos esses personagens, Volpone apresenta uma mudança em relação ao passado: havia se submetido a uma cirurgia plástica e mudado o rosto, o que facilita a aceitação de todos os seus tipos sem nenhuma desconfiança.

Stela e Aranha, que até então tinham um casamento tranqüilo, passam a viver em crise com a volta de Volpone. Além disso, ela começa a se sentir atraída por Augusto, sem saber que ele é na verdade seu ex-marido. Mais tarde a atenção de Stela se vira para André, mexendo ainda mais com o coração de Volpone. Essa proximidade também começa a diminuir o desejo de vingança que o protagonista sente por Stela. A desconfiança de que Mônica seja na verdade sua filha também influencia Volpone a tirar a ex-mulher de sua lista de desafetos.

O principal objetivo, a descoberta do verdadeiro assassino de Telles, encontra vários obstáculos pela frente. O maior deles é o desaparecimento de Olívia (Lupe Gigliotti), antiga governanta de Telles e que estava na mansão no dia do crime. Ela viu Volpone discutir com o ex-sogro e sair atrás de um médico quando Telles começou a se sentir mal. O depoimento da empregada, no entanto desapareceu do processo e ela mesma nunca mais foi vista. Caiu sobre Volpone a culpa de ter matado o sogro com uma pancada na cabeça.

ney-e-kroeberEnquanto faz suas investigações, outros personagens cruzam os caminhos de Volpone. É o caso de Amélia Bicudo (Cissa Guimarães), uma jornalista que resolve acompanhar de perto a vida do “moribundo da bolha”. Graças a isso acaba por ajudá-lo nas investigações. Outro que sem saber acaba enredado na trama é Pedro Ernesto (Carlos Kroeber), amigo de Aranha. Pedro Ernesto acaba se apaixonando por Anabela Freire e, pasmem, os dois se casam, com direito até mesmo a um selinho no vídeo, talvez o primeiro “beijo gay” exibido na Globo. O selinho, o casamento e o surgimento de dois novos personagens travestidos, Clarabela e Florisbela, respectivamente Lula e Mosca disfarçados como as irmãs de Anabela, acabaram por chocar parte do público e a censura.

Notificada, a Globo manteve essa trama no ar, mas depois foi obrigada a retirá-la. A não consumação do casamento entre Pedro e Anabela por alegados problemas sexuais da “noiva” ganhou novo fôlego com a chegada de Olga del Volga (Patrício Bisso). Olga já era uma personagem famosa de Patrício, que entrou na novela para uma divertida participação. No desenrolar da trama e próximo do final da novela, Pedro, enlouquecido de amor, acaba dando um tiro em Anabela. Volpone vai para o hospital e todos descobrem a farsa dos personagens, menos o próprio Pedro que, para ser poupado da realidade, é avisado de que Anabela morreu. Ele vai embora do país com Dorothy (Tamara Taxman), amiga de Volpone.

susana-um-sonhoAo final da trama, o assassino é revelado: Renata (Susana Vieira), irmã de Aranha, tivera um caso com Telles. Desse romance nasceu Valéria (Maitê Proença). Telles se recusou a registrar a menina e ainda obrigou Renata a entregar a filha para a costureira Beatriz (Yara Amaral) criar. Inconformada Renata entrou no escritório de Telles logo após a saída de Volpone e acertou o ex-amante com uma âncora, acabando com sua vida. Aranha e Guilherme (José Lewgoy), o marido de Renata, fizeram de tudo para encobrir a participação  dela no crime. Deram dinheiro para que Olívia, a única que sabia da verdade, desaparecesse.

De volta ao Brasil, Olívia passa a trabalhar na casa de Renata e Guilherme e chantageá-los. Para salvar a esposa, Guilherme se entrega à polícia em seu lugar. Renata tenta fugir do Brasil ao lado do amante Joaquim (Edson Celulari), mas inconformada por não ter recebido o que queria, Olívia avisa Volpone da fuga. O protagonista vai até o aeroporto e consegue impedir que Renata saia do país. Com o crime resolvido, finalmente Volpone pode voltar a ser ele mesmo e se entregar ao amor de Stela.

O início de “Um Sonho a Mais” foi muito confuso. Junta-se a isso a escalação errada e a pouca atenção que a Globo deu à produção. A direção de Roberto Talma e sua equipe também contribuiu para o equívoco. Por volta do capítulo 37, abalado pelas críticas, Daniel saiu da novela e coube a Lauro César Muniz assumir os rumos da trama.

Ao lado de Mário Prata e de Dagomir Marquezi, o experiente autor deu novo fôlego à novela e fez de “Um Sonho a Mais”, pelo menos nos números, um grande sucesso.

final-sonho-a-maisSem dúvida alguma a novela foi de Ney Latorraca, principalmente em sua composição como Anabela Freire, que acabou voltando para uma participação especial no último capítulo de “Zazá” (Lauro César Muniz, 1997, 19h – TV Globo). Nessa participação ela se apresentava como Anabela Volpone. O personagem, inicialmente cotado para Francisco Cuoco, é um dos maiores sucessos de Ney na TV. A protagonização da novela vinha como prêmio pelo sucesso que o ator fizera na minissérie “Rabo de Saia” (Walter George Durst) um ano antes. A novela reunia Latorraca e Marco Nanini, dupla que se consagraria no teatro no ano seguinte em uma feliz dobradinha no espetáculo “O Mistério de Irma Vap”, ficando nove anos em cartaz. Na peça, Ney voltava a viver vários personagens, dessa vez acompanhado na empreitada por Nanini.

Mesmo com vários tropeços e uma certa ingenuidade, “Um Sonho a Mais” vale ser lembrada. Não podemos esquecer que a trama foi ao ar em 1985, o chamado ano de ouro da Rede Globo, em que novelas como “Roque Santeiro” (Dias Gomes e Aguinaldo Silva, 20h), “A Gata Comeu” (Ivani Ribeiro, 18h) e “Ti Ti Ti” (Cassiano Gabus Mendes, 19h) foram apresentadas. Se não foi tão boa como suas companheiras, pelo menos “Um Sonho a Mais” tem o mérito de também ter ficado na memória dos telespectadores.

Walter de Azevedo

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