“Xica da Silva”: Elenco de tantas cores

No reinado de Xica da Silva”, não havia somente uma rainha. Ao lado da protagonista Taís Araújo, a grande revelação da novela, resplandeceu a vilã Violante, brilhantemente criada por Drica Moraes. Diabólica e maquiavélica, dada a bruxarias e recheada de preconceito racial, Violante provou que o talento de sua intérprete ia (e vai) muito além da comédia, gênero pelo qual era mais conhecida. Sua interpretação nesse folhetim lhe valeu o prêmio APCA de melhor atriz de 1997.

Esse duelo de interpretações tinha um objetivo: conquistar o amor de um homem, o contratador João Fernandes de Oliveira, interpretado pelo gaúcho Victor Wagner. Dono de um par de enormes olhos azuis, o ator havia estreado na produção anterior da TV Manchete (Tocaia Grande, 1995) e já foi alçado ao papel de mocinho romântico em Xica da Silva. Seu talento dramático não era muito notável, mas outros atributos fizeram o bonitão ser capa duas vezes da revista de nu G Magazine, destinada prioritariamente ao público gay.

Joias negras

Zezé Motta, que encarnou (brilhantemente) a ex-escrava voluntariosa no cinema (Xica da Silva, 1976, direção de Cacá Diegues), deu vida, na novela, a Maria, mãe da protagonista. Foi de Zezé uma das cenas mais fortes da trama (mesmo considerando que o folhetim era recheado de estupros, assassinatos e torturas): em praça pública, Maria tem seus braços e pernas amarrados a quatro cavalos. Quando um tiro é disparado, os animais correm em direções contrárias, esquartejando o corpo da negra e arrastando os pedaços diante de dezenas de olhares. No último capítulo, Zezé reaparece como Xica mais velha, enquanto Taís Araújo vive a filha de Xica em uma cena de casamento.

Outros grandes atores de raça negra compuseram o elenco de Xica da Silva: Léa Garcia (Bastiana), Zózimo Bulbul (Caetano), Maria Alves (Rosa), Haroldo de Oliveira (Jacinto), Maurício Gonçalves (o escravo Quiloa, amigo de Xica), Romeu Evaristo (Damião), Déo Garcez (Paulo), Iléa Ferraz (Fátima), Lui Mendes (Malé) e a jovem e bela Thalma de Freitas (Caetana). O elenco afrobrasileiro completava-se ainda com a presença especial da sambista Leci Brandão (Severina).

Feras e belas

Grandes medalhões de tez branca também integraram o ótimo cast da novela. Reynaldo Gonzaga encarnou Felisberto Caldeira Brant, pai de Xica que intencionava vendê-la para um prostíbulo, de quem a filha bastarda vingou-se ao roubar o baú de diamantes e desencadear a ação. A pobre moça saiu da frigideira para o fogo ao cair nas mãos do cruel sargento-mor Thomaz Cabral, defendido com garbo por Carlos Alberto. O elenco masculino contava ainda com as participações especialíssimas de Sérgio Britto como o Conde Valladares e de Sérgio Viotti como o Conde da Barca, bem como os galãs Mário Cardoso (Sebastião), Dalton Vigh (Expedito), Jayme Periad (Félix), Paulo César Grande (Evaristo de Sepúlveda Toledo) e Fernando Eiras (Luiz Felipe Cabral). Merece menção ainda a participação do jovem Charles Möeller (Santiago), atualmente um incensado e talentoso diretor de musicais.

Entre as mulheres, destaque para a feiticeira Benvinda, criação arrepiante de Miriam Pires. Ângela Leal vivia a Marquesa Carlota e Lourdes Mayer emprestou sua voz rouca e seu talento à Madre Superiora. A novela contou ainda com a participação de Lu Grimaldi como Fausta.

Com tantas cenas de nudez e erotismo, era natural que belas e jovens beldades integrassem o elenco de Xica da Silva. Quem mais gravou, digamos, à vontade foi Adriane Galisteu. Sua personagem, Clara, ficou meio desmiolada depois que seus pais foram roubados por Xica (o que ocasionou a prisão e a morte do casal em Portugal) e passou a zanzar semidespida pelos riachos da região do Arraial do Tijuco. Para a tristeza do público feminino, a mesma insanidade não acometeu o irmão de Clara, Martin (vivido pelo galã Murilo Rosa).

Talvez para ajudar as atrizes a desapegarem-se de vestimentas inúteis, Xica da Silva teve uma participação internacional sui generis: a da atriz de filmes pornô Cicciolina, nome artístico da húngara (naturalizada italiana) Ilona Staller. Ela interpretou Ludovica de Castelgandolfo, uma cortesã que se passa por princesa genovesa. Dizendo angariar fundos para montar um convento, dá um golpe em grande parte da população do Arraial do Tijuco. “Esse papel era para a Sylvia Kristel (do filme Emmanuelle). Achamos a Cicciolina mais atual e mudamos o personagem”, declarou o diretor Walter Avancini ao jornal Folha de S. Paulo (1/6/1997).

Entre tantas outras beldades, merecem destaque a menina Ludmila Dayer (Isabel Gonçalo), que havia vivido a jovem Carlota Joaquina no filme de Carla Camuratti (1995), Alexia Dechamps (Condessa Efigênia) e Giovanna Antonelli (Elvira). Quando da reprise de Xica da Silva pelo SBT, em 2005, esta atriz processou a nova emissora por ter exibido a novela sem a sua autorização. Mas acabou perdendo a causa em segunda instância, tendo direito apenas a receber os direitos conexos (cerca de 10%).

Surpresas boas e más

Outro destaque de Xica da Silva foi a participação do seminovato ator Guilherme Piva como o afetado Zé Maria. O gaúcho interpretava um guarda, mas, com a desistência do ator Marco Polo (que havia inclusive gravado chamadas no papel de Zé Maria), Piva assumiu o personagem e caiu nas graças do público.

Autor de uma das canções da trilha sonora, o cantor e compositor Eduardo Dussek deu vida a Emanuel Gonçalo. Outro cantor, Kiko Zambianchi, e os atores Eduardo Conde, Rômulo Arantes e Cássia Linhares, mesmo tendo nomes mencionados na divulgação, à época, não participaram da produção.

Uma nuvem de tristeza cobriu o céu estrelado da novela. O ator Alexandre Lippiani, que vivia o Padre Eurico, morreu vítima de um acidente automobilístico em maio de 1997, aos 32 anos, antes do final das gravações. No início do capítulo de 28/7/97, no qual havia a última cena gravada por Lippiani, a produção prestou-lhe uma homenagem com o seguinte texto: “Termina hoje a participação do ator Alexandre Lippiani, o nosso Padre Eurico, que esperamos ter encontrado o refúgio da paz. Queremos deixar registrada aqui a única palavra capaz de expressar o nosso mais profundo sentimento: saudade.”  Não só Lippiani, mas todo o elenco dessa produção que marcou a história da TV brasileira deixou saudades em milhões de espectadores país afora.

Fabiano Gonçalves

This entry was posted in Teledossiê and tagged by Fabiano Gonçalves. Bookmark the permalink.
Fabiano Gonçalves

About Fabiano Gonçalves

Publicitário e roteirista formado no Maurits Binger Film Institute de Amsterdã. Co-roteirista do longa "O Amor Está no Ar" e programas de TV, como a novela "Chiquititas" (SBT, 1998/2000). Atualmente é redator no Departamento Nacional do Senac e escreve sobre música e musicais no site Movimento.com.

9 thoughts on ““Xica da Silva”: Elenco de tantas cores

  1. Cicciolina? Que bizarro! :-o
    Mas trazer o Berlusconi seria mais pornográfico. Foi melhor assim.

  2. Essa novela teve um elenco numeroso, mas sobrou história para todo mundo. Eu já citei que os atores falavam baixo e até sussurravam em cena e nem esse recurso deixou essa novela cansativa. Na verdade não era uma novela com agilidade, exceto em cenas de ação ou violência, mas era um espetáculo. Na época eu me dividia: em momentos assistia Razão de Viver, pois era impossivel não se render ao talento de Irene Ravache e em outros via a Xica. A cena em que padre Eurico era emparedado pelo inquisidor foi memorável. Faltou um casitgo maior a Violante. Dona de maldades nem de longe cometidas pelas divas Odete Roitman e Nazaré, ter sido rejeitada e aprisionada pelo contratador foi pouco para ela. Esse ano foi impossivel não se lembrar de Violante e seu irmão Luis Felipe. Em Guerra dos Sexos, Drica Moraes voltava a cena com Fernando Eiras como o casal Nieta e Dino. A comédia predominou grande parte da narrativa da trama de Walcyr: a cena em que Ursula entra na igreja para se casar com Xavier Mateus Petinatti desistiu de ser ator e virou cabeleireiro em Campinas) foi marcante. Todos pensavam que ela estava grávida e ao tomar um chá preparado creio que por Fatima, sua barriga murchava porque ela não estava grávida e sim estava estufada rsrs. Outro grande momento para o saudoso Altair de Lima como Jacobino e sua escudeira Maria Benguela (Lucimara Martins) que tentava fazer Zé Maria ser hétero. O final de Benvinda também curioso: ela entrava no corpo de uma recem nascida atraves de um feitiço. Um momento raro da TV brasileira que nem record e SBT seriam capazes de reproduzir, apenas exibir o que já foi feito. Garanto que um remake de Xica da Silva nunca daria certo, pois tudo o que tinha de ser dito foi dito naquele momento. Saudades do jeitinho Manchete de fazer novela. Saudades dessa emissora que não era e nunca foi uma opção a quem não queria ver a Globo!!

  3. Ludovica de Castelgandolfo? kkkkkkkkkkk algum semelhança ou mera coincidência com a casa de verão dos papa?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>