Por que o turismo de experiência combina tão bem com o Brasil
Quando comecei a viajar pelo Brasil com um olhar mais atento, percebi que o que realmente ficava comigo não eram só as paisagens bonitas, mas as conexões que eu criava: com as pessoas, com a comida, com as histórias de cada lugar. Foi assim que o turismo de experiência passou a fazer muito mais sentido para mim do que simplesmente “conhecer pontos turísticos”.
No Brasil, essa forma de viajar se encaixa perfeitamente: somos um país diverso, com biomas únicos, comunidades tradicionais, uma culinária riquíssima e uma economia criativa pulsante. E quando juntamos hospedagens sustentáveis, gastronomia local e compras conscientes em uma mesma viagem, a jornada ganha profundidade e impacto positivo – tanto para nós, viajantes, quanto para os destinos que nos recebem.
O que eu considero uma hospedagem verdadeiramente sustentável
Ao planejar minhas viagens, passei a olhar para hospedagem como muito mais do que uma cama confortável. Para mim, um lugar realmente sustentável é aquele que gera impacto social e ambiental positivo de forma concreta, e não apenas no discurso de marketing.
Hoje, quando escolho onde ficar, costumo observar alguns pontos práticos:
- Se a pousada ou hotel emprega moradores locais em condições justas.
- Se há algum tipo de parceria com produtores, artesãos ou guias da região.
- Se o empreendimento tem ações claras de redução de lixo, uso racional da água e da energia.
- Se há respeito à cultura local, evitando descaracterizar tradições para “agradar turista”.
- Se a construção e a operação consideram o entorno, evitando poluição visual e sonora.
Em destinos de natureza, como Chapada dos Veadeiros (GO), Jalapão (TO) ou a Serra da Mantiqueira (entre SP, MG e RJ), é comum encontrar pousadas que utilizam energia solar, têm sistemas de reaproveitamento de água da chuva e trabalham com reciclagem ou compostagem. Quando eu vejo que o lugar investe nesse tipo de solução, me sinto mais disposta a pagar um pouco mais, porque entendo que estou apoiando um modelo de turismo que respeita o território.
Outra coisa que valorizo muito são as hospedagens familiares ou comunitárias, como:
- Hospedagem em comunidades quilombolas.
- Casas de família em cidades históricas, como Ouro Preto (MG) e Paraty (RJ).
- Projetos de turismo de base comunitária em áreas ribeirinhas, indígenas ou caiçaras.
Nesses casos, o dinheiro que eu gasto vai mais diretamente para quem vive no destino, o que ajuda a fortalecer a economia local e a manter as tradições vivas. Além disso, a experiência é muito mais rica: ouvir histórias, aprender palavras em outra língua ou dialeto, participar do dia a dia… tudo isso dá uma dimensão humana à viagem que nenhum grande resort consegue oferecer.
Como eu conecto hospedagem e gastronomia local
Uma das maiores alegrias de viajar pelo Brasil, para mim, é comer. Só que comer não é só matar a fome: é entender o clima, a história, os ingredientes e as rotas de comércio de cada região. Quando escolho uma hospedagem que valoriza a gastronomia local, a viagem ganha um outro sabor – literalmente.
Em várias pousadas pequenas e bem integradas ao território, o café da manhã já conta uma história. Eu já me hospedei em lugares onde:
- Os pães eram feitos com fermentação natural e farinha de produtores locais.
- Os queijos vinham diretamente de fazendas vizinhas, com indicação de origem.
- As frutas eram colhidas no próprio quintal ou em sítios da região.
- Os doces seguiam receitas de família, passadas de geração em geração.
Essa valorização da cadeia curta – do produtor para a mesa – é uma forma de turismo de experiência que muitas vezes passa despercebida. Eu gosto de perguntar:
- De onde vem esse queijo?
- Quem faz esses doces?
- Existe feira de produtores na cidade?
Quase sempre, essas perguntas se transformam em dicas de passeios: visitar uma queijaria na Serra da Canastra (MG), conhecer uma feira agroecológica em Florianópolis (SC), almoçar em um restaurante familiar em pequenas cidades do interior do Nordeste, provar pratos feitos com peixes regionais da Amazônia ou do Pantanal.
Quando eu escolho restaurantes, quiosques de praia ou bares, procuro lugares que:
- Divulgam a origem de ao menos parte dos ingredientes.
- Valorizam receitas típicas em vez de apenas pratos “internacionais” padronizados.
- Empregam pessoas da região, inclusive na cozinha.
- Respeitam a sazonalidade, evitando ingredientes fora de época.
No Nordeste, por exemplo, eu dou preferência a marisqueiras e pequenos restaurantes de família, em vez de grandes redes. Na Amazônia, busco casas que trabalham com peixes de manejo sustentável, evitando espécies ameaçadas. Assim, a gastronomia deixa de ser só uma atividade da viagem e passa a ser uma forma direta de apoiar o território.
Compras conscientes: lembranças que fazem sentido
Durante muito tempo, eu voltava de viagem com uma mala cheia de lembrancinhas genéricas: imãs, chaveiros, objetos produzidos sabe-se lá onde. Com o tempo, comecei a questionar esse hábito e a me perguntar: o que realmente representa esse lugar que visitei?
A partir daí, passei a adotar algumas regras pessoais para comprar de forma mais consciente:
- Evitar produtos industrializados em massa, que poderiam ser comprados em qualquer lugar.
- Priorizar artesanato feito por artesãos locais, com matéria-prima da região.
- Conversar com quem produz, perguntar a história daquela técnica ou peça.
- Comprar menos, mas escolher itens com significado e qualidade.
O Brasil é riquíssimo em artesanato e design autoral. Em minhas viagens, já encontrei:
- Cerâmicas com grafismos tradicionais em comunidades indígenas.
- Rendas feitas à mão em cidades do Nordeste, como em Alagoas e no Ceará.
- Peças de madeira reaproveitada na Amazônia e no Centro-Oeste.
- Bordados e tecelagens na Região Sul e em comunidades rurais do Sudeste.
Quando eu compro diretamente do artesão, muitas vezes na própria casa ou em feiras locais, eu sinto que estou ajudando a manter aquele saber vivo. Também presto atenção a selos e certificações de comércio justo, cooperativas e associações de artesãos, pois isso indica uma organização coletiva por trás do trabalho.
Também há outro lado das compras conscientes: questionar o que não comprar. Em regiões de natureza sensível, evito totalmente produtos feitos com:
- Partes de animais silvestres.
- Madeiras de origem duvidosa.
- Conchas, corais ou sementes cuja coleta prejudica o ecossistema.
Ao recusar esses itens, eu sinto que estou enviando uma mensagem clara de que aquele tipo de exploração não é aceitável, além de alinhar meu consumo com o cuidado com a biodiversidade brasileira.
Planejando uma viagem que junte hospedagem, comida e compras com propósito
Quando eu decido montar uma viagem de experiência no Brasil com esse olhar integrado, sigo alguns passos simples que podem ser adaptados a qualquer destino:
- Escolher um ou dois temas centrais: pode ser natureza, cultura, gastronomia, história ou um mix.
- Pesquisar hospedagens menores, de preferência geridas por moradores da região.
- Mapear feiras locais, mercados municipais, casas de produtores e cooperativas.
- Listar pratos típicos que eu quero provar e onde posso encontrá-los de forma autêntica.
- Identificar um ou dois projetos sociais, culturais ou ambientais para visitar e apoiar.
Por exemplo, se eu viajo para o interior de Minas Gerais, posso:
- Me hospedar em uma pousada rural que produza parte dos alimentos servidos.
- Visitar uma queijaria artesanal e entender o processo de maturação do queijo.
- Comprar diretamente do produtor um ou dois queijos com selo de origem.
- Conhecer uma feira de artesanato local, conversar com bordadeiras e artesãos.
- Reservar um dia para caminhar pela cidade histórica, com um guia local contando histórias.
Já em uma viagem de praia, como no litoral do Nordeste, eu posso:
- Escolher uma pousada pé na areia que trabalhe com energia solar e trate seu esgoto.
- Comer em barracas administradas por famílias locais, provando moquecas, peixes e frutos do mar frescos.
- Comprar renda, colares de sementes e arte em madeira produzidos na própria comunidade.
- Participar de passeios com guias credenciados, evitando tours predatórios com a natureza.
O segredo é entender que cada escolha é uma forma de voto: com quem eu me hospedo, onde eu como e o que eu compro determina que tipo de turismo eu estou alimentando. Quando eu combino essas três dimensões com intenção, a viagem fica mais coerente e muito mais transformadora.
O impacto que eu percebo em mim e nos lugares que visito
Ao adotar esse olhar mais responsável e experiencial, notei duas mudanças importantes. A primeira foi em mim mesma: passei a viajar com mais calma, mais curiosidade e menos foco em “marcar presença” em pontos famosos. As conversas que tenho, as histórias que escuto e os sabores que descubro formam uma memória muito mais rica do que qualquer foto de cartão-postal.
A segunda mudança é no relacionamento com os destinos. Quando eu volto a um lugar onde já estive, percebo que as pessoas me reconhecem, lembram do meu interesse genuíno pela cultura local. Essa relação de respeito é a base de um turismo mais equilibrado, em que quem chega não se comporta como dono do espaço, mas como convidado.
O Brasil tem tudo para ser referência mundial em turismo de experiência com responsabilidade: biodiversidade única, saberes tradicionais, diversidade cultural impressionante e uma cena gastronômica em constante renovação. A parte que cabe a mim é fazer escolhas conscientes, apoiar quem faz um trabalho sério e, sempre que possível, compartilhar essas vivências para inspirar outros viajantes.
Se, ao planejar sua próxima viagem pelo Brasil, você conseguir juntar uma hospedagem que respeita o território, refeições baseadas em ingredientes locais e compras que valorizam o trabalho de quem produz, provavelmente vai voltar para casa com algo que não cabe na mala: um novo jeito de olhar para o país e para o próprio ato de viajar.
Fabiola
